O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 125

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Não há uma maneira simples de dizer isso, de modo que será melhor que eu diga sem rodeios.— Por favor. Corelli inclinou-se para frente e cravou seus olhos em mim.— Martín, quero que crie uma religião para mim. De início pensei que não tinha ouvido bem.— Como disse? Corelli sustentou meu olhar com seus olhos sem fundo.— Disse que quero que crie uma religião para mim. Contemplei-o durante um longo instante, mudo.— Está zombando de mim. Corelli negou, saboreando seu vinho com deleite.— Quero que reúna todo o seu talento e se dedique de corpo e alma, durante um ano, ao maior trabalho que poderia criar: uma religião. Só pude cair na gargalhada.— Está completamente louco. É essa a sua proposta? É esse o livro que quer que eu escreva? Corelli fez que sim serenamente.— Enganou-se de escritor. Não sei nada de religião.— Não se preocupe com isso. Eu sei. A pessoa que procuro não é um teólogo. É um narrador. Sabe o que é uma religião, amigo Martín?— Mal me lembro do pai-nosso.— Uma oração preciosa e muito bem trabalhada. Poesia à parte, uma religião vem a ser um código moral que se expressa através de lendas, mitos ou qualquer tipo de objeto literário, com o objetivo de estabelecer um sistema de crenças, valores e normas que sirvam para regular uma cultura ou uma sociedade.— Amém— repliquei.— Como em literatura ou qualquer outro ato de comunicação, o que confere efetividade é a forma e não o conteúdo— continuou Corelli.— Mas então está dizendo que uma doutrina nada mais é que um conto.— Tudo é um conto, Martín. O que cremos, o que conhecemos, o que recordamos e até o que sonhamos. Tudo é um conto, uma narração, uma seqüência de acontecimentos e personagens que comunicam um conteúdo emocional. Um ato de fé é um ato de