O imprevisível 2018 PD49 | Página 220

Há uma sequência de páginas de nossa história encerradas por uma maravilhosa citação a Guimarães Rosa que muito nos define:“ A vida não tem passado. Toda hora o barro se refaz. Deus ensina”.
Nosso perfil: tendência ao confinamento, mercantilismo inato, ativismo que nos impele, uma ambivalência verão-inverno que se expressa em radicalismos passionais. Mentalidade impressionista. Versatilidade sagaz. Inteligência e imaginação extremas.
A imprevidência. Um caráter insatisfeito, inquieto e inseguro. O“ espartanismo” negativo( A espartanidade aqui é austeridade). Capacidade de resistência. Fatalismo. Tendência mágica. O sentido de uma espera. Somos esta beleza toda. E mais.
Temos afeição pela terra. Uma indiferença sobranceira, mas sempre tocada por uma“ graça vivaz”. Atitudes preventivas e defensivas. Sublimamos as tristezas. Somos bélicos, e temerários diante dos riscos. Desconfiados, irreverentes, sarcásticos, irônicos.
Apesar de expansivos a ponto de nos ser difícil guardar segredos, muitas vezes nos tornamos retraídos, introvertidos, em função de alguma conveniência, acredita Parsifal. Somos vanguardistas, nosso orgulho é citar em que fomos os primeiros:
Primeira abolição da escravatura, primeiro grande romancista, primeira academia de letras, primeira mulher na academia brasileira, primeiro romance do regionalismo... E temos uma incontrolável tendência libertária, às vezes em reações de indisciplina social. Nenhuma queda para a tradição. E por aí vamos.
Parsifal foi governador do Ceará. Era político, e era intelectual, no tempo em que intelectuais governavam. Alguém disse que um país é grande quando as pessoas de bem têm a mesma ousadia dos canalhas.
Ah! que saudades dos tempos de José de Alencar, quando a população ia em peso assistir aos eletrizantes e muito cultos discursos no Senado que era composto pela nata da nata dos pensadores brasileiros.
Foi o neto de Parsifal, Igor Queiroz Barroso, quem promoveu a reedição. Senti tantas esperanças de que os meus netinhos vão preservar o pouco que fiz!
Sobre a obra: O Cearense, de Parsifal Barroso. 2. ed. 2017. São Paulo: Escrituras. 136p.
218 Ana Miranda