O imprevisível 2018 PD49 | Page 215

As esquerdas em crise
Adelson Vidal Alves

É do conhecimento de todos que a política em geral vive momentos de questionamento e tensão, sobretudo no que diz respeito à sua face institucional. Neste universo, incluímos a crise das esquerdas, que se faz até mais longa e complexa que a de outras vertentes intelectuais, ideológicas e políticas, devido a sua natureza crítica e plural. As raízes, as causas e os horizontes desta crise seguem sendo um debate que envolve partidos políticos, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e também o mercado editorial. Este mostra ter grande fôlego, testemunhado em publicações diversas e qualificadas. Tamanho vigor pode ser verificado em obras como esta, que reúne entrevistas, ensaios e artigos de vários acadêmicos, intelectuais e militantes da esquerda brasileira.

O livro inicia-se com uma longa entrevista do filósofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma. Debatendo“ Utopia e a redução dos danos”, Ribeiro faz uma reflexão sobre a prática de esquerda, suas ambições e seus limites de ação, usando quase sempre como pano de fundo a experiência do Partido dos Trabalhadores, dentro e fora do governo federal. Conceitualmente, ele parte da conhecida definição de Norberto Bobbio, que delimita a diferença entre esquerda e direita a partir da visão sobre as desigualdades. Enquanto a direita as naturaliza, a esquerda defende que as diferenças sociais resultam da prática social; por isso, deve haver interferência da política e do Estado para a correção das distorções que nascem da dinâmica sistêmica.
Janine, a partir dai, vai discutir as orientações práticas e teóricas que a diversidade das esquerdas assume ou deverá assumir. Ao falar de utopia, o entrevistado localiza uma“ extrema-esquerda” que se diferenciaria e até entraria em choque com uma esquerda que se move dentro da realidade, em uma perspectiva de redução de danos. Esta última teria se convencido da necessidade de construir alianças, fazer concessões, operar pacientemente dentro do capitalismo, seja para amenizar os prejuízos que provoca, seja para superá-lo.
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