formando um trio poliamor consensual, em um estilo de vida definido por ele como“ anticonformista”.
História e mito
Claro que aspectos biográficos do criador de Mulher-Maravilha não explicam tudo, mas são reveladores de suas bases intelectuais e inspirações. Até porque a super-heroína só foi criada em 1941, já no contexto da II Guerra Mundial. Da criação ao filme de 2017, muitas transformações político-culturais ocorreram no contexto ocidental, particularmente no anglo-saxão. Mas também não se entende profundamente o filme sem este repertório feminino e feminista das origens da personagem, incluindo vários diálogos do filme que incomoda machistas assumidos( como os que proibiram o filme) ou envergonhados( que o desprezam se utilizando de alegações“ estéticas”).
A ambição do filme Mulher-Maravilha está em todos os detalhes, harmoniosamente construídos: a relação com a fotografia – importante em três grandes momentos do filme( começo, meio e fim) –, com a moda, com a questão do gênero, e, principalmente, com o a sexualidade( como nos diálogos do barco entre a personagem e Steve Trevor; ele, um homem comum, ela, uma deusa).
Mas é principalmente na relação entre a história – contexto da primeira guerra mundial( 1914-1918), que inaugura o século 20, de tantas transformações – e o mito, entre Eros e Tanatos, Amor e Morte, Paz e Guerra, Mulher-Maravilha e Marte.
Uma deusa dotada de beleza, força, um laço mágico, e uma espada“ matadora de deuses”. Mas também de um conceito político-cultural que pode marcar o século 21 como o século em que as mulheres conquistarão o mundo, mesmo que seja pelo princípio defendido por William Moulton Marston com um toque de perversão, mas com grande dose de simbolismo; aspecto também demonstrado no belo e subestimado filme de Roman Polanski, inspirado na obra de Leopold Von Sacher-Masoch, a partir de uma peça teatral de David Ives,“ A Pele da Vênus”( Venus in Fur, 2013):“ Dê aos homens uma mulher sedutora, dotada de um laço mágico, e mais forte do que eles, e logo estarão dispostos a se tornar escravos delas.”
Que venha, pois, este século tão perigoso quanto fascinante! Evoé Afrodite!
182 Martin Cezar Feijó