O imprevisível 2018 PD49 | Page 156

Não há, portanto, outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade e do aprofundamento da nossa dimensão subjetiva. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento, jamais nos situaremos, de forma verdadeira, diante da redenção e, consequentemente, da mediação de Cristo.
A subjetividade de Kierkegaard não é tributária da atmosfera romântica que envolvia sua época. Seu profundo significado a-histórico tem mais a ver com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo, do que com as características do Romantismo então em voga no continente europeu.
A redenção, ainda quando observada como fato histórico, possui uma dimensão que a transforma numa referência intemporal para se vivenciar a Fé. O cristão é aquele que se sente continuamente na presença de Deus pela mediação do Cristo, e a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz.
Por tudo isso é que este filósofo critica o Cristianismo da sua época, principalmente o Protestantismo dinamarquês, imiscuído, segundo ele, de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso, minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a Fé.
Esta angústia, no entender de Kierkegaard, estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. Este relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens.
Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos( individuais e familiares) e valores objetivos( a cidade, a comunidade), como no caso da tragédia grega. Nada está em jogo, a não ser ele mesmo e a sua fé. Deus não está testando a sabedoria de Abraão, da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo.
Por tudo o que decorre da sua afirmação, a Fé não pode ser elucidada pelos conceitos. Eles não dariam conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. Existir é existir diante de Deus, e a impossibilidade de compreensão da infinitude divina faz com que a consciência vacile como se estivesse diante de um abismo.
154 Dimas Macedo