em todo caso, não teriam ocorrido sem uma forte organização dos trabalhadores e uma luta permanente para conquistas sociais.
Na Alemanha, de 1860 a 1975, a jornada de trabalho caiu de 78 horas, para apenas 40 horas semanais, numa tendência decrescente continuada, com apenas pequena inflexão negativa em 1930, até o final da segunda guerra mundial. Mesmo com duas grandes guerras mundiais no meio, este período coincidiu com três ciclos econômicos alimentados por surtos de inovação tecnológica e, portanto, elevação da produtividade do trabalho. Neste ambiente, os sindicatos e os partidos socialdemocratas ampliaram a sua influência e o poder para disputa de fatias relevantes dos excedentes econômicos. Menos tempo de trabalho e maiores salários formaram a equação do grande progresso social dos países desenvolvidos, principalmente na Europa Ocidental e Central. Tudo isso, sem comprometer a acumulação de capital, na medida em que o aumento da produtividade elevou também o que Marx chamava de mais-valia relativa. Além disso, o aumento da renda e do tempo livre dos trabalhadores ampliou bastante a demanda de bens e serviços, estimulando os investimentos e crescimento da economia, num circulo virtuoso: aumento da produtividade com aumento dos excedentes, que se dividiam em acumulação e melhores salários, aumento da demanda e redução da jornada de trabalho, com melhoria das condições de vida dos trabalhadores com retorno positivo sobre a produtividade.
Atualmente, a jornada de trabalho oficial na Alemanha( contrato coletivo de trabalho) é 37,6 horas, embora, na média, os trabalhadores alemães trabalhem 41,6 horas semanais, segundo dados da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho. A jornada semanal de trabalho na Alemanha é um pouco maior do que a da Bélgica e da França, com 38,6 e 38,4 horas, respectivamente. Entretanto, este maior tempo de trabalho semanal dos alemães é mais do que compensado por períodos mais longos de férias, de modo que, ao longo de um ano, os alemães trabalham 1.651 horas, cerca de cem horas menos de trabalho que a média da União Europeia, que é 1.744 horas.
Mesmo aqui, no Brasil, a jornada de trabalho oficial caiu continuamente, chegando às 44 horas atuais, sendo que muitas categorias já não trabalham mais de 40 horas semanais. Na verdade, o descanso semanal é prática relativamente recente no Brasil, da mesma forma que a aposentadoria, tendo sido criados e generalizados no arcabouço jurídico das primeiras décadas do
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