havia uma tocha acesa em honra ao “ santo sacramento .” Antes de raiar o dia formou-se a procissão , no palácio do rei . “ Primeiramente vinham as bandeiras e cruzes das várias paróquias ; a seguir apareciam os cidadãos , caminhando dois a dois , e levando tochas .” Vinham então as quatro ordens de frades cada qual em seus trajes peculiares . Seguia vasta coleção de famosas relíquias . Após , cavalgavam senhorilmente eclesiásticos em suas vestes de púrpura e escarlate , e com adornos de jóias -uma exibição magnífica e resplandecente .
“ A hóstia era levada pelo bispo de Paris , sob magnificente pálio , ... carregado por quatro príncipes de sangue . ... Em seguida à hóstia caminhava o rei . ... Francisco I , naquele dia , não levava coroa , nem vestes de Estado .” Com a “ cabeça descoberta , olhos fixos no chão , na mão um círio aceso ”, o rei da França aparecia “ em caráter de penitente .” -Wylie . Em cada altar ele se curvava em humilhação , não pelos vícios que lhe aviltavam a alma , nem pelo sangue inocente que lhe manchava as mãos , mas pelo pecado mortal de seus súditos que tinham ousado condenar a missa . Seguindo-se a ele vinham a rainha e os dignitários do Estado caminhando também dois a dois , cada um com uma tocha acesa .
Como parte das cerimônias do dia , o próprio monarca discursou aos altos oficiais do reino no grande salão do palácio do bispo . Com semblante triste apareceu perante eles , e com palavras de eloqüência comovedora deplorou “ o crime , a blasfêmia o tempo de tristeza e desgraça ”, que sobrevieram à nação . E apelou para todo súdito leal a que auxiliasse na extirpação da pestilente heresia que ameaçava de ruína a França . “ Tão verdadeiramente , senhores , como eu sou o vosso rei ”, disse ele , “ se eu soubesse estar um dos meus próprios membros manchado ou infectado com esta detestável podridão , eu o daria para que vós o cortásseis . ... E , demais , se visse um de meus filhos contaminado por ela , não o pouparia . ... Eu mesmo o entregaria e sacrificaria a Deus .” As lágrimas abafaram-lhe as palavras , e toda a assembléia chorou , exclamando em uníssono : “ Viveremos e morreremos pela religião católica !” -D ’ Aubigné .
Terríveis se tornaram as trevas da nação que rejeitara a luz da verdade . “ A graça que traz a salvação ” havia aparecido ; mas a França , depois de lhe contemplar o poder e santidade , depois de milhares terem sido atraídos por sua divina beleza , depois de cidades e aldeias terem sido iluminadas por seu fulgor , desviou-se , preferindo as trevas à luz . Haviam repudiado o dom celestial , quando este lhes foi oferecido . Tinham chamado ao mal bem , e ao bem mal , até serem vítimas voluntárias do próprio engano . Agora , ainda que efetivamente cressem que , perseguindo ao povo de Deus estavam fazendo a obra divina , sua sinceridade não os inocentava . A luz que os teria salvo do engano , da mancha de sua alma pelo crime de sangue , haviam-na voluntariamente rejeitado .
Um juramento solene para extirpar a heresia foi feito na grande catedral , onde , quase três séculos mais tarde , a “ Deusa da Razão ” deveria ser entronizada por uma nação que se tinha
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