O Grande Conflito por Ellen G. White 1 | Page 144

pretexto para pedirem a destruição completa dos hereges como agitadores perigosos à estabilidade do trono e da paz da nação .
Por alguma mão secreta -se a de um amigo imprudente , ou a de um ardiloso adversário , nunca se soube -um dos cartazes foi colocado à porta do quarto particular do rei . O monarca encheu-se de horror . Naquele papel eram atacadas sem reservas superstições que haviam recebido a veneração dos séculos . E a audácia , sem precedentes , de introduzir à presença real estas afirmações claras e surpreendentes , suscitou a ira do rei . Em espanto ficou ele por um pouco de tempo a tremer e com a voz embargada . Então sua raiva encontrou expressão nestas terríveis palavras : “ Sejam sem distinção agarrados todos os que são suspeitos de luteranismo . Exterminálos-ei a todos .” Estava lançada a sorte . O rei se decidira a pôr-se completamente do lado de Roma .
De pronto foram tomadas medidas para a prisão de todos os luteranos em Paris . Um pobre artífice , adepto da fé reformada , que se havia acostumado a convocar os crentes para as suas assembléias secretas , foi agarrado e , sob a ameaça de morte instantânea na fogueira , ordenou-se-lhe conduzir o emissário papal à casa de todos os protestantes na cidade . Ele estremeceu de horror ante a vil proposta , mas finalmente o medo das chamas prevaleceu , e concordou em se fazer traidor dos irmãos . Precedido da hóstia , e rodeado de um séquito de padres , incensadores , monges e soldados , Morin , agente policial do rei , com o traidor , vagarosa e silenciosamente passaram pelas ruas da cidade . Aquela demonstração era ostensivamente em honra ao “ santo sacramento ”, um ato de expiação pelo insulto feito pelos protestantes à missa . Mas , por sob aquele espetáculo escondiase um propósito mortal . Chegado defronte da casa de um luterano , o traidor fazia um sinal , mas nenhuma palavra era proferida . O cortejo fazia alto , entravam na casa , a família era arrastada e acorrentada , e o terrível séquito prosseguia em procura de novas vítimas . “ Não poupavam casa , grande ou pequena , nem mesmo os colégios da Universidade de Paris . ... Morin fez abalar toda a cidade . ... Era o reinado do terror .” -História da Reforma no Tempo de Calvino , de D ’ Aubigné .
As vítimas foram mortas com tortura cruel , sendo ordenado especialmente que o fogo fosse abaixado , a fim de prolongar-lhes a agonia . Morreram , porém , como vencedores . Sua constância foi inabalável , imperturbada sua paz . Os perseguidores , impotentes para abalar-lhes a inflexível firmeza , sentiram-se derrotados . “ Os cadafalsos foram distribuídos por todos os bairros de Paris , e as fogueiras arderam durante dias sucessivos , no intuito de , espalhando as execuções , espalhar o terror da heresia . A vantagem , entretanto , ficou afinal com o evangelho . Toda Paris habilitou-se a ver que espécie de homens as novas opiniões produziram . Não havia púlpito como a fogueira do mártir . A serena alegria que iluminava o rosto daqueles homens , ao se encaminharem ... para o lugar da execução ; seu heroísmo , estando eles entre as chamas atrozes ; seu meigo perdão às injúrias , em não poucos casos transformavam a cólera em piedade e o ódio em amor , pleiteando com irresistível eloqüência em prol do evangelho .” -Wylie .
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