Newsletter AEAC N.º 7 março 2026 | Page 3

Compreender as gerações: um desafio que nos educa a todos

Num tempo em que tantas vezes se fala das gerações— umas a apontar o dedo às outras, outras a tentar simplesmente encontrar o seu lugar— torna-se urgente parar e escutar. Escutar com profundidade, sem pressa, sem ruído.
As palavras de José Tolentino Mendonça surgem como um convite raro: não para julgar, mas para compreender; não para dividir, mas para aproximar. Entre inquietações, silêncios e perguntas que atravessam alunos, professores e famílias, esta reflexão abre espaço para um olhar mais humano, mais atento e, talvez, mais esperançoso.
Porque, no fundo, cada geração não é um problema a resolver— é uma história a escutar.
Um diálogo colaborativo entre gerações
O Filósofo Jean-Luc Nancy levantou uma questão que me fez pensar: a de saber se, num mundo em clara mutação como é o nosso, ainda é possível falar de gerações. Para se falar de gerações é necessário que a geração presente se sinta em parte gerada pela anterior, se considere devedora desse engendramento, se assuma como herdeira de um dinamismo que, mesmo na sucessão, mantém linhas de continuidade. Essas são formas concretas de plasmar a transmissão. Ora, num mundo que se autorrepresenta, até de forma exasperada, a partir do paradigma da rutura e da fragmentação, algo fica subtraído quanto à possibilidade de nos experimentarmos coo geração. Para Nancy, uma das razões da desorientação da civilização atual é que « as gerações não se sabem nem se sentem geradas, mas sim destituídas, abandonadas, ou ainda largadas à beira da estrada […], numa região confusa e desprovida de pistas e sinais. E esta desorientação ou vertigem atinge hoje a todos: não só os que têm vinte anos, mas também os de oitenta. É como se a crise dos encadeamentos entre gerações nos desligasse uns dos outros, nos tornasse mais incertos sobre aquilo que somos, mais hesitantes quando à duração e aos modos de transmitir e herdar o mundo, sem saber o que temos a agradecer uns aos outros.
De onde vimos? Somos herdeiros de quem? Quem nos continuará? Qual é verdadeiramente a nossa história? Que nos é pedido para conservar e levar mais longe? Culturalmente, faltam-nos testemunhas, transmissores e mediadores para um diálogo colaborativo entre gerações que ajude a encontrar respostas consistentes para estas perguntas.
MENDONÇA, José Tolentino( 2025). Para os caminhantes tudo é caminho. Lisboa: Quetzal Editores.( Série“ Obras de José Tolentino Mendonça”).
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