My first Magazine Revista Sarau Subúrbio ed 01 | Seite 38
Era o Barbeirinho que também escreveu “na hora que a barriga do moleque
ronca, é aí que a gente mete bronca”, ou seja, a realidade do trabalhador brasileiro
e carioca, que tem que se virar, fazer um biscate aqui, virar uma massa acolá para
pagar o aluguel e garantir o alimento dos filhos. Barbeirinho do Jacarezinho, antes
de mais nada era um trabalhador e tinha a noção e sua convicção de classe como
poucos eu já conheci. O artista, o gênio 14 vezes gravado por Zeca Pagodinho,
gravado por Bezerra da Silva, Arlindo Cruz, Beth Carvalho e respeitado no mundo
do samba, conhecido no meio da MPB que muitas vezes você ouviu suas letras e
pensou “esse cara tá bem”: tinha uma frase célebre e real, em meio às conversas
e desabafos soltava “o problema é que tá cheio de cafetão de sambista!”.
E esta é uma cruel realidade, não foi atoa que Barbeirinho viveu a vida
inteira e tantos outros compositores vivem tendo que ser, o pedreiro de dia e o
sambista a noite, o mecânico e o compositor, e um longo etc de vida dupla e
mesmo assim com uma genialidade inesgotável como foi Barbeirinho, devido ao
fato que neste País o compositor popular está a míngua. Refém das gravadoras e
produtoras que por muitas vezes se aproveitam da situação de vulnerabilidade, e
com “adiantamentos” aos compositores na hora de gravar, depois aplicam
descontos com juros dignos da pior agiotagem ou como da expressão do mestre
pode-se deduzir, digna do rufianato.
É Barbeirinho do Trio Calafrio também, com seus parceiros e irmãos Luiz
Grande e Marquinhos Diniz, Barbeiro viveu grandes momentos, gravou disco, fez
samba, e se orgulhava muito. Amava muito os dois, tivemos a grande despedida
de Luiz, o “Vagabundo mais sério” que nos doeu muito, não sabíamos que não era
só a comemoração de 70 anos de Luiz naquele tarde na rua Bororó, e que no dia
seguinte nosso parceiro não estaria mais entre nós... Barbeirinho sentiu muito a ida
do irmão, Luiz Grande era para ele como um irmão mais velho, isto sem dúvida.
Também ficaria orgulhoso e está de toda solidariedade e força, energia positiva que
Marquinhos ficou conosco lutando pela sua recuperação...
Nunca iriamos imaginar que nosso cumpadre sairia de cena naquele 16 de
dezembro, não foi fácil se despedir deste grande irmão, de ser de luz que foi e é
Barbeirinho do Jacarezinho, o Rei dos Cidadãos. Fico com várias lembranças, todas
boas e sempre que puder vou compartilhando...
E as vozes dos que não passam no mundo a passeio nunca se calam, e por
isto, é que digo que hoje Barbeirinho do Jacarezinho estaria gritando “Marielle,
Presente!” do mesmo modo que a voz dela também jamais será silenciada!
Barbeirinho do Jacarezinho, Presente!