My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Seite 54
11
Bar ruim é
lindo, bicho!
Por Antonio Prata
Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você
sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há
mais de cento e cinquenta anos (deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de
cento e cinquenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que
cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos
sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata,
e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por
isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau
e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da
nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma
moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho,
porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é
qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um
boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, uma lágrima
imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós,
meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual,
meio de esquerda, frequenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais,
meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio
intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na
Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente