My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Page 36
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Havia também o perigo de ser preso por vadiagem. Está sem carteira de trabalho no bolso?
Cadeia. Foi daí que Caetano tirou a aquela imagem poética de caminhar contra o vento, sem
lenço e sem documento. Entendia-se que se o sujeito estava sem documento, não era
trabalhador.
Essas duas coisas davam ao bar um novo conceito: podia estar junto lá sem chamar muita
atenção. Não eram coisas explícitas (reunião de partido, aparelhos, militância), mas sim uma
forma de se unir com os seus sem ser abordado por subversão ou vadiagem.
Eram as trupes: dos artistas, dos intelectuais, dos estudantes, dos jornalistas. De gente que
coloca a cara a tapa e luta por democracia, ainda que nos mínimos detalhes. Ou de gente que
luta sussurrando no seu quarteirão. É esse o ponto.
Foi o que o movimento estudantil fez ao usar o Restaurante universitário, o RU, nas suas
reuniões para entender o acordo MEC-Usaid, ao passo que também fazia rodas de samba no
Bar do Leleco. Foi o que a entrada de mulheres no bar fez ao dizer que um costume não é só
um costume, mas uma discriminação. Foram as reuniões disfarçadas de churrascos, o fato de
sempre ter uma comidinha junto, foi até o alcoolismo. Foram as portas se abrindo para os
rejeitados. Foi acompanhar a proclamação do AI-5 bebendo cerveja. Foi estar lá, todos os dias,
resistindo à censura, jogando boliche e finalmente podendo falar em voz alta sobre tudo que
estava errado.
Porque há quem diga que o bar não significa nada, mas, meu amigo… É nas horas vagas que
a vida acontece de verdade.
Apesar de Você - Chico Buarque