My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Page 30

29 de viver assim, pressionado, contra a parede, onde tudo é proibido, nada é realmente divino maravilhoso. E é assim que ler um poema no bar, usar um batom, cortar o cabelo e a irreverência toda são formas de dizer com o próprio corpo que se está contra tudo que “está aí”. Havia os que não escovavam os dentes – “ir ao dentista é coisa de burguês” – e os que não tomavam banho. Porque todo mundo estava frágil, sentia-se no ar que alguma coisa estava errada, e o corpo se torna uma forma de protestar nessas alturas. O corpo é político. A fala, a bebida, o escarro: tudo que sai de ti é o início de um movimento. Em nome do que, depende de você. Divino Maravilhoso - Gal Costa Um outro fato sobre a ditadura militar era a censura sobre a imprensa. Havia, portanto, nas redações de jornal, TV e rádio, murais com bilhetinhos colados diariamente sobre o que era proibido falar naquele dia. Assim, desse jeito mesmo. Quando pouco, um censor batia às portas, em pessoa. Às vezes, acontecia de a matéria estar pronta e ser barrada. Mas o que rolava muito no Paraná era a autocensura: já sabendo o que seria proibido, os jornalistas não falavam sobre aquilo, se cuidavam, conversavam com os editores e mudavam o tom das próprias palavras. E é por isso também que ninguém mencionava assalto ao banco, morte de índio, violência em geral e, é claro, corrupção. Ficava por debaixo dos panos. Sem notícia, a população não ficava sabendo o que de ruim vinha do governo. A mídia sempre é alvo de regimes autoritários.