My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Page 30
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de viver assim, pressionado, contra a parede, onde tudo é proibido, nada é realmente divino
maravilhoso.
E é assim que ler um poema no bar, usar um batom, cortar o cabelo e a irreverência toda são
formas de dizer com o próprio corpo que se está contra tudo que “está aí”. Havia os que não
escovavam os dentes – “ir ao dentista é coisa de burguês” – e os que não tomavam banho.
Porque todo mundo estava frágil, sentia-se no ar que alguma coisa estava errada, e o corpo
se torna uma forma de protestar nessas alturas.
O corpo é político. A fala, a bebida, o escarro: tudo que sai de ti é o início de um movimento.
Em nome do que, depende de você.
Divino Maravilhoso - Gal Costa
Um outro fato sobre a ditadura militar era a censura sobre a imprensa. Havia, portanto, nas
redações de jornal, TV e rádio, murais com bilhetinhos colados diariamente sobre o que era
proibido falar naquele dia. Assim, desse jeito mesmo.
Quando pouco, um censor batia às portas, em pessoa. Às vezes, acontecia de a matéria estar
pronta e ser barrada. Mas o que rolava muito no Paraná era a autocensura: já sabendo o que
seria proibido, os jornalistas não falavam sobre aquilo, se cuidavam, conversavam com os
editores e mudavam o tom das próprias palavras.
E é por isso também que ninguém mencionava assalto ao banco, morte de índio, violência
em geral e, é claro, corrupção. Ficava por debaixo dos panos. Sem notícia, a população não
ficava sabendo o que de ruim vinha do governo. A mídia sempre é alvo de regimes
autoritários.