My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Seite 16

15 Mas aí acontece que a boemia do Rio é mais óbvia. O Rio cheira à boemia. Bem sabemos que Tom e Vinicius viram a Garota de Ipanema passando enquanto estavam sentados no bar, o então “Veloso”; a mulher do Cartola tinha um bar e sambas aconteciam o tempo todo por lá. Mas acontece que o Rio de Janeiro tem praia, areia, mar e água de coco, e o clima praiano que sopra que o Havaí seja aqui, como canta Caetano Veloso em “Menino do Rio”, ofusca um pouco a boemia toda da classe artística. Já Curitiba é fria, Curitiba não tem escolha. Ou fica no bar ou não fica. O que mais se faz em uma cidade fria? Em épocas de neve – ou da crença de que vai nevar –, veja bem, épocas de migração, de andar a pé, de sair do jornal lá por meia-noite, a única escolha é o bar. Não há quem negue que sobre Curitiba paira a fama de ser uma cidade provinciana. Cheia de pudores, a capital paranaense não está tão ao Sul para ostentar o orgulho dos gaúchos, nem tão ao centro para ser uma das grandes capitais do país, mas grita em brado retumbante que é uma pequena Europa dentro da América do Sul. Já levou alguns títulos: Cidade Sorriso, Cidade Modelo, Cidade Ecológica, Cidade Sustentável, limpa, bonita, civilizada E etcetera. Os curitibanos também fizeram um nome. Alguns dizem que são fechados, outros que é tudo uma questão de manter a privacidade. Onde já se viu visitar a casa alheia sem avisar antes? Fila é questão de ordem. O sistema de transporte público comove até os mais bairristas. Vina, penal e piá. Dar um rolê pela XV. Leite quente. Curitibano que é curitibano fala essas coisas por aí e acha o máximo. Nos calçadões de petit-pavê do Centro, um amontoado de histórias. É dobrando uma das esquinas da Praça Osório que está o “bar mais antigo da cidade”, de 1904. O Bar Stuart funciona até hoje e vira e mexe seu prédio, um casarão histórico, aparece à venda. Nas paredes, fotos em preto e branco de quem já passou por lá para tomar uma “Água de Valeta” ou comer o prato clássico: “Testículo de touro”. Até uns tempos atrás, mulher não entrava, mas isso é história para se contar mais pra frente.