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A LUTA BEBE CERVEJA
A
s mãos engorduradas de frango frito, desses que ninguém sabe em que gordura
foram feitos, mas que todo mundo come mesmo assim e nem questiona, porque há
algo de aceitável em comer qualquer porcaria quando se está num bar. É igual, sei lá, roll-
mops, iguaria curitibana que consiste em sardinha e cebola em conserva há sabe-se lá quan-
tos anos, feitas pra quem tem coragem, estômago ou costume.
É coisa de bar mesmo, botequim, para os boêmios convictos. É para quando se está bêbado
e faminto e sem grana, então umas poucas moedas de cruzado, cruzeiro ou cruzeiro novo já
são suficientes para matar a fome. Mas nem só nessas situações – às vezes, quando de passa-
gem e com o bucho vazio, a maior alegria do sujeito é encontrar uma portinha aberta, que
serve fritura e refrigerante até umas horas, e aí não importa mesmo por qual banha aquilo
passou.
As mãos engorduradas de frango frito eram as mesmas que trocavam dinheiro no caixa, que
seguravam tacos de sinuca e que faziam anotações em bloquinhos de tempos em tempos.
Eram as mãos de aproximadamente dez jornalistas vindos de todos os cantos do Brasil. Não
estavam bêbados, mas estavam ali há alguns dias. E no fim das contas comer frango frito no
barzinho é um bom disfarce.
Entre eles estava Luiz Manfredini, o Manfra, que assume o mea culpa daquela reunião de
repórteres não combinada com antecedência. O ano é 1978. Manfra era repórter da sucursal
do mítico Jornal do Brasil em Curitiba, e ainda ostentava cabelos compridos ao invés do
chapéu panamá que usava quando contou essa história.
Ele estava ali comendo frango frito ao lado de jornalistas da Veja, do Estadão (O Estado de S.
Paulo), da Folha de S. Paulo, num bar mequetrefe que devia até ter um nome, mas que nin-
guém se lembra, e que ficava na frente do Quartel do Boqueirão, órgão do Exército, na exten-
sa e superpovoada zona sul de Curitiba, às suas ordens.
O Quartel do Boqueirão era um dos polos do regime militar na cidade, onde os soldados trei-
navam para matar e morrer em nome da “pátria amada, Brasil”, em tempos que andar na rua
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