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�1 para nos visitar , vindo da Escola Secundária em Lisboa , onde está a estudar Turismo e já pensa em fazer Erasmus num futuro próximo . Chega-nos mais alto e com voz grossa , mas com o mesmo sorriso e o mesmo respeito . Faz-nos refletir sobre o quão rápido passaram estes 9 anos da Helpo nas Fontainhas e o quanto , também nós , fomos crescendo a par e passo com os nossos “ pioneiros ”.
A Célia , ao contrário do Moreno , não está na Helpo desde os 6 anos . Mas tanto que cresceu connosco , desde que chegou aqui ! Ela marcou-nos e merece ser partilhado o seu percurso . No Verão de 2016 , chegou até nós , por caminhos árduos , a Célia . Na altura tinha 12 anos e , tendo-se visto com a vida virada do avesso , precisava de uma ocupação durante as Férias de Verão . Foi então que começou a fazer voluntariado na Helpo . De sorriso tímido e poupando muito nas palavras , foi-se familiarizando com a rotina do escritório e da loja social da Helpo , onde muito aprendeu com a voluntária Elisabete que , com toda a paciência e carinho , a orientava na tarefa da triagem da roupa doada à Helpo . Quando o ano letivo começou , a Célia juntou-se à nossa Ludoteca e integrou o Projeto BRINCA , Projeto de Apoio ao Estudo , que a Helpo implementa nas Fontainhas . A começar o 7 .º ano , o entusiasmo e motivação que desejávamos ver eram substituídos por uma caderneta cheia de faltas , uma mãe preocupada e sem mãos a medir , uma diretora de turma frustrada , e uma Célia desapegada e desligada da escola e de todas as oportunidades , que daí pudessem surgir . Não foi fácil sair desta espiral de desmotivação ! Foram muitas as conversas sérias com a mãe da Célia , as reuniões com a diretora de turma e a psicóloga da escola , os “ abanões ” em forma de sermão , que acabavam sempre com uma Célia chorosa por sentir que estava a desiludir quem lutava por ela e , sobretudo , com ela . Os percursos incertos trazem as suas consequências e o 7 .º ano da Célia prolongou-se por mais dois anos letivos do que o previsto . Hoje , com 16 anos , a Célia está a iniciar o 9 .º ano e carrega consigo uma bagagem densa e mesmo inesperada para uma jovem desta idade . A bagagem trouxe-lhe aprendizagens e uma consciência que hoje não nos deixa outra coisa que não orgulho .
Já não é a menina tímida e poupada nas palavras . Tem sempre uma opinião sobre tudo e faz sempre questão de a partilhar . Sabe que na Helpo o pode fazer , pois ali está em casa , segura . É idolatrada pelos mais novos e , com essa consciência , comporta-se sempre como um exemplo a seguir , tornando- -se , quase sem querer , a irmã mais velha do grupo . Tem ideias que fervilham , muitas ! Partilha-as e já as transformou em projetos que ganharam vida . Traz a melhor amiga , Rapha , e o namorado , Lucas , para nos visitar , sempre com a gentileza e felicidade de quem traz “ os seus ” à “ sua casa ”. No 9 .º ano sabe muita coisa , sabe tudo , como todos pequenos gigantes desta idade sabem . Ao saber que o percurso na Helpo chega ao fim no final do 9 º ano , diz-nos repetidamente e cheia de certeza : “ no 10 .º ano vou para o curso de animação sociocultural e , depois , venho estagiar para a Helpo . Sim , eu vou continuar a vir no 10 .º ano , nem pensem que se livram de mim !”. A idade mais avançada não nos permite ter tanta certeza , mas uma coisa sabemos : a Célia marcou-nos tanto ou mais do que nós a ela . Guardamos esta certeza e o percurso de consecutivas conquistas , que tem feito connosco até aqui , com um carinho gigantesco e certos de querermos continuar a estar por perto nos próximos anos ! Tal como os percursos do Moreno e da Célia , marcam-nos as histórias da Madalena , da Isabel , da Mafalda ou da Carolina que , com muito pesar nosso , viram chegar o seu “ último ano na Helpo ”. Agora , no 10 .º ano , acabam por continuar ligados a nós e a pedirem- -nos , através das suas visitas e interjeições teatrais próprias da idade , dizendo que “ não acredito que não podemos vir mais à Helpo !”, que a Helpo , como fez até aqui , continue a crescer com eles e encontre um espaço que seja deles também . Com isto instala-se uma dúvida , que nos faz refletir : estarão os “ nossos miúdos ”, que ajudámos a crescer , a querer agora , mesmo sem se aperceberem , ajudar-nos a crescer , também ?