“Tão feliz me senti ao ver olhos brilhantes dos que receberam a sua bicicleta”
Por Marco Chagas.
Quando recebi o convite para me deslocar a Moçambique e aí participar numa ação humanitária, que consistia na entrega de
110 bicicletas a crianças e jovens, estava longe de imaginar o quão marcante seria ela na minha vida.
Falar de Moçambique, ou de outro país lusófono de África, deixa qualquer português com um brilho nos olhos, em especial os
menos jovens, e logo nos vêm à memória as histórias contadas pelos nossos familiares, que estiveram ou conheceram alguém
que lá esteve: militares, que combateram na Guerra Colonial, ou famílias que lá viveram, muitos que ali nasceram. Para mim,
que já tinha alguma experiência de África, com algumas viagens à África do Sul, Marrocos e Angola, a ida a Moçambique foi
uma vivência única!
Esta experiência é particularmente marcante quando se pode entrar no interior de uma “casa”, que alberga uma família com
9 filhos (o mais velho com 14 anos), quando para lá chegar andamos numa viatura 4x4 durante largos quilómetros e olhan-
do em redor só vemos vegetação e percebemos que a água está bem longe, que será transportada em recipientes colocados
à cabeça das mulheres e das crianças, e que esta gente não faz a menor ideia do que é o mundo noutras paragens, em pleno
século XXI.
Por isso, tenho que destacar o trabalho fantástico que a HELPO, uma ONGD portuguesa, está a fazer, não só em Mo-
çambique, mas também na Guiné-Bissau e em S. Tomé e Príncipe.
Esta organização, com 10 anos de existência, dá um apoio essencial às crianças no norte de Moçambique, trabalho esse que
consiste na construção de escolas, recuperação das existentes, reforço na alimentação das crianças e muito mais. No âmbito
de todas estas iniciativas, a entrega de 110 bicicletas tem um peso quase simbólico.
Em parceria com uma empresa moçambicana de bicicletas, a Mozambikes, com o português Rui Mesquita como mentor, foi
possível fazer deslocar, durante 3 dias, o camião carregado com as Bikes, desde Maputo, onde são montadas, até às es-
colas onde foram entregues. Aí, e perante centenas de crianças e adolescentes, foram distribuídas as bicicletas, aos que mais
delas necessitam, segundo o critério dos animadores da HELPO nas respetivas escolas.
Tão feliz me senti ao ver os olhos brilhantes dos que receberam a sua bicicleta, saber a importância da mesma na melho-
ria das suas vidas, como triste fiquei ao perceber a desolação das outras centenas que não receberam.