98 :: H ISTÓRIA :: M ÓDULO 1
Introdução
Desde o começo deste curso, nossa proposta foi oferecer uma visão de
História mais global, isto é, que relacionasse os fatos e processos ocorridos em
diferentes áreas do nosso mundo. Sabemos que nem sempre isso é possível, mas
no que se refere aos grandes processos de mudança ocorridos na Europa no século
XVIII é possível relacioná-los com os movimentos políticos ocorridos nas Américas
que levaram à independência da maioria das colônias européias.
Caberia, então, a pergunta: qual a relação entre a Revolução Industrial, as
ideias do iluminismo e do liberalismo e a Revolução Francesa com o que aconteceu
no nosso continente, a América, no século XVIII? Como as novas ideias que surgiam
na Europa, ao lado de transformações econômicas e políticas, foram entendidas e
apropriadas por colonos portugueses, espanhois, ingleses das Américas? E, mais
importante, o que estava acontecendo nas sociedades coloniais que nos ajuda a
entender as reivindicações de separação da metrópole? São essas as questões que
discutiremos nas páginas a seguir.
A independência das 13
colônias inglesas da América
do Norte (século XVIII)
Como vimos no capítulo 5, a efetiva colonização da América do Norte pelos
ingleses aconteceu a partir do início do século XVII. Nesse século, a Inglaterra
viveu um período de instabilidade interna, conhecido como a fase das revoluções
inglesas (1640–1688). Por essa razão, entre outras, as Treze Colônias da
América do Norte se formaram ao longo dos séculos XVII e XVIII – muito depois,
portanto, da colonização portuguesa e espanhola no continente.
Os territórios da América do Norte não foram ocupadas apenas por ingleses.
Outros povos europeus nelas se instalaram. Foi o caso dos holandeses que, na
mesma época em que ocuparam parte do território do Brasil colonial e portos de
presença portuguesa na África e no Oriente, fundaram uma colônia na América do
Norte, onde é hoje o estado de Nova Iorque.
Nessas colônias existiam diversas modalidades de trabalho compulsório,
sendo que, nas colônias do sul, a principal era a escravidão africana. Apesar de
a maior parte dos escravos de origem africana ter sido levada para as colônias
do sul, também eram encontrados nas colônias do centro e do norte ao lado de
trabalhadores livres.
Nesse processo de formação das sociedades coloniais nos séculos XVII eXVIII, as
relações com a metrópole inglesa foram marcadas por uma relativa autonomia das
colônias. Isso signififou que era possível às elites coloniais estabelecer regras próprias
para o seu próprio governo, assim como desenvolver com maior liberdade suas
economias. Esse cenário, entretanto, começou a mudar na segunda metade do século
XVIII. Vamos entender porquê.
Mudanças na política inglesa para a América do Norte
Em meados do século XVIII, começou na região do vale do rio Ohio uma sangrenta
disputa entre ingleses e franceses por territórios e riquezas locais. Os franceses tiveram
nos indígenas seus primeiros aliados, parceiros de longa data no comércio de peles.
No decorrer da disputa, os ingleses procuraram se aliar a outros grupos indígenas,
prometendo vantagens, armas e proteção. Deu-se início à Guerra dos Sete Anos (1756-
1763), entre França e Inglaterra, disputando áreas da América e, também, da Ásia. A
vitória ficou com os ingleses. Os franceses perderam o Canadá e ilhas do Caribe como
Granada, São Vicente e Tobago.
Houve expressiva participação de colonos nessa guerra. No entanto, logo após o
fim do conflito o rei da Inglaterra proibiu o acesso de colonos às terras do vale do Ohio.
A justificativa foi que era necessário pacificar os índios do local, que haviam sido aliados
dos franceses. Além dessa razão, o rei desejava obter exclusividade no lucrativo comércio
de peles com os indígenas. Essa proibição desagradou enormemente aos colonos, que
pretendiam expandir suas atividades econômicas na região.
Essa atitude não foi um ato isolado, mas se inseria em uma nova política que
buscava reforçar a presença da metrópole nas colônias e aprofundar o controle
econômico sobre elas. Logo em seguida, a monarquia inglesa criou impostos para
cobrir as despesas que tivera com a guerra e sustentar os funcionários militares e
administrativos que chegavam na colônia em maior número para fazer cumprir as
novas leis e determinações. Assim, foram estabelecidas taxas para o açúcar e o
melaço (Ato do Açúcar), depois para os jornais e documentos (Lei do Selo), logo
para outros produtos (vidro, tinta, chumbo, ferro e chá).
A reação dos colonos a essas medidas não demorou a aparecer, expressando-
se em revoltas, boicotes atos de sabotagem. Um desses atos foi o despejo ao mar
de 300 caixas de chá por colonos fantasiados de índios, na cidade de Boston em
1773, episódio conhecido como “festa do chá”. Os colonos se revoltaram, então,
contra a tentativa metropolitana de fazê-los consumir somente o chá vendido por
ingleses, após décadas de comércio com comerciantes de diferentes países.
O governo da Inglaterra então respondeu com a edição das chamadas “Leis
Intoleráveis” (1774), ocupando militarmente o porto de Boston. Além disso,
iniciou um endurecimento da política colonial, combatendo o comércio direto entre
as colônias da América do Norte, ilhas do Caribe e a África (comércio triangular), o
que só fez crescer o descontentamento nas colônias.
Para os colonos, essa nova postura metropolitana atingia diretamente a
autonomia política e colonial que possuíam.
Desde o início da colonização, havia a prática de consulta e de realização de
assembleias para a escolha de representantes e tomada de decisões importantes –
como a cobrança de novos impostos. Essas práticas eram influenciadas pelos costumes e
experiências dos que vieram da Inglaterra para serem colonos na América. Ao desrespeitá-
las, a Coroa inglesa atingira em cheio o modo de vida que os colonos defendiam.
Novas ideias vinham da Europa
Lembramos novamente de como estavam ligadas as histórias das diversas
áreas do mundo conectadas pelo oceano Atlântico. As mudanças no pensamento
europeu do século XVIII, com o movimento iluminista, chegaram até as Américas.
Algumas das novas ideias como o questionamento ao poder abosoluto dos reis
cresceu e o direito de liberdade ganhou espaço nas discussões e reivindicações
políticas dos colonos, sobretudo do norte.
O liberalismo de Locke, pensador inglês, foi uma grande força inspiradora, uma
vez que defendia a ideia de que o governo deveria ser o resultado de um acordo
entre governantes e governados, com base numa lei maior: uma Constituição.
Inicialmente, as reivindicações dos colonos para a metrópole eram de uma