42 :: H ISTÓRIA :: M ÓDULO 1
Ásia
Da costa oriental da África, com correntes marítimas favoráveis, podia-se
chegar à Índia muito rapidamente para os padrões da época. E este, afinal,
era o grande objetivo dos portugueses: alcançar a terra cobiçada, a Índia das
especiarias, dos tecidos luxuosos, das pedras preciosas e dos perfumes.
O avanço sobre a Índia foi relativamente rápido: em dez anos já
dominavam importantes cidades do litoral e, para isso, utilizaram a força
das armas, estratégias de negociação envolvendo suborno e presentes aos
chefes e funcionários de governos locais, estratégias de guerra apoiando
grupos inimigos dos que queriam derrotar e, aproveitando-se das rivalidades
pré-existentes, provocando ou alimentando conflitos. Assim, se deu a
conquista de cidades importantes da Índia: Goa – conhecida como a “Lisboa
do Oriente” e que virou capital do grande vice-reino português da Índia – Diu,
Damão, Cochim e Calicute – onde, para garantir a construção de um forte
português, foram necessárias várias batalhas com milhares de mortos.
A Índia não era um centro produtor de todas as mercadorias do Oriente
que os portugueses desejavam. Suas cidades eram centros de comércio, de
distribuição de produtos que vinham não apenas do interior da própria Índia,
mas também do Ceilão (atual Sri Lanka), da China, do Japão e da Indonésia.
Nas cidades indianas, mercadores locais, árabes e africanos atuavam nesse
comércio que juntava, pelas rotas marítimas e terrestres, regiões distantes.
Os portugueses disputavam o controle do comércio marítimo no Oceano
Índico com esses grupos. Suas vantagens sobre os adversários eram seus
barcos, mais velozes e maiores, e suas armas de fogo, mais potentes. Os
muçulmanos, grandes inimigos de Portugal na região mediterrânea, também
eram adversários na Índia e na África Oriental. Mas nesse caso, eram
muçulmanos indianos, africanos e árabes. Da Índia os portugueses partiram
para leste (China, Japão) e oeste (Golfo Pérsico). Antes, conquistaram
Málaca (na atual Malásia), importante ponto estratégico e centro comercial
naquela área. Dali conquistaram as ilhas Molucas, o Timor e outras ilhas
produtoras de especiarias.
Na China e no Japão não encontraram grandes concorrentes comerciais.
Enfrentaram alguma oposição, mas venceram a resistência em alguns
pontos. Na China, fundaram a cidade de Macau, que permaneceu durante
séculos como colônia portuguesa. No Japão, levaram missionários católicos
e conseguiram muitos adeptos – no entanto, a intolerância religiosa dos
católicos, sobretudo frente ao budismo, levou à expulsão dos missionários
no século XVII.
No início do século XVI, Portugal marcava presença em diversos pontos
do Oriente e tinha preferência em quase todo o grande comércio da região
do Oceano Índico. Em alguns poucos lugares, tinha o controle do poder local,
sustentado, é claro, com alianças e acordos com soberanos vizinhos.
Mas, afinal, quem eram as pessoas que faziam e comandavam essas
viagens de contato e conquista nas embarcações portuguesas? Barcos não se
moviam sozinhos, as guerras se ganhavam com soldados (além de canhões)
e a administração de locais distantes se fazia com funcionários. História,
como sabemos, se faz com gente.
!S hGENTESv DA EXPANSÎO
Os marinheiros e aprendizes que trabalhavam nos barcos eram em geral
homens e jovens muito pobres, que viam nessas viagens possibilidades de enriquecer
ou ao menos de sair da pobreza. A vida nas viagens era muito dura: obedeciam a
uma disciplina rígida de trabalho e eram alojados sem qualquer conforto. Mas a
maioria encontrava na profissão oportunidade de ganhos que não teria em qualquer
outro trabalho. Corriam riscos, pois nem todas as viagens eram bem-sucedidas, mas
parecia valer a pena para eles.
A figura mais importante da tripulação era o piloto. Os pilotos, em geral,
haviam sido marujos que aprenderam o valorizado ofício e recebiam bem por
seu trabalho, sendo contratados com exclusividade – pois exerciam uma função
que exigia conhecimentos das rotas e correntes marítimas, dos locais de p arada,
e de toda uma série de informações vitais para a viagem. Os pilotos contratados
para essas grandes viagens, ao regressarem, recebiam um pagamento que cobria
também o valor de seu silêncio a respeito dos caminhos marítimos utilizados. Além
disso, o piloto também tinha o direito de comprar produtos e revendê-los na Europa.
Os reis de Portugal também nomeavam homens da nobreza como capitães dos
barcos ou de um conjunto de barcos. Em geral, eram nobres de sua confiança, que
viam nas funções administrativas no Oriente uma oportunidade de ficarem muito
mais ricos. E, de fato, ficavam.
Havia postos na administração dos domínios portugueses que eram muitos
disputados na Corte em Lisboa. Um fiel e bom funcionário do rei, de origem nobre,
mas não necessariamente rico, poderia ter como prêmio em determinado momento
de sua vida um posto na Índia. Um eficiente administrador de terras consideradas de
domínio português, mas não tão valorizadas, poderia ter como pagamento, no final
de sua carreira funcional, um cargo numa cidade da Índia. Lá era praticamente certo
o enriquecimento, além do poder de distribuir favores, o que o tornaria um homem
respeitado, ao estilo da época e conforme os valores da sociedade portuguesa.
Funcionários da Coroa acabavam por atuar em várias partes do Império Português,
não só na Índia, estabelecendo laços entre suas diversas partes.
A ocupação dessas áreas do mundo no período da conquista portuguesa
(séculos XV e XVI, sobretudo) também se deu pela presença dos “lançados”. Os
“lançados” eram portugueses degredados (expulsos de Portugal por terem cometido
crimes), que eram deixados nas terras encontradas, por ordem dos capitães dos
barcos. Como muitas vezes não podiam voltar para Portugal, casavam-se com
mulheres nativas, constituíam família e se tornavam informantes e tradutores dos
viajantes portugueses que por ali voltassem a passar. Alguns desses degredados
viraram intermediários no comércio de produtos locais e enriqueceram. Em muitos
lugares do Oriente, as famílias de degredados formaram as bases de uma sociedade
“portuguesa” local.
Os domínios portugueses na Ásia trouxeram, além de muita riqueza, muitos
conhecimentos e novos produtos para o mundo português. E o mundo português,
a partir de 1500, passou a incluir também parte da América do Sul – o que viria a
ser o território brasileiro.
Nesta parte do mundo (a América), os espanhóis haviam sido os primeiros a
chegar, segundo constava. À espera de que essa terra fosse a Índia, chamaram seus
habitantes de... índios!