Minha primeira publicação Revista D Marilia - Casa #76 | Page 30
OPINIÃO
LAERTE
ROJO
...nos céus, as
renas voavam
Quando chegava o fim do ano, algum tempo atrás, o velho
gordinho até que não ficava apavorado. Ele já sabia dos
pedidos de natal. Sempre eram bolas, bonecas ou carrinhos.
Às vezes até errava os pacotes, mas no fim dava tudo certo.
As meninas podiam receber uma bola, carrinho ou boneca e
não reclamavam. Já os meninos levavam desvantagem, não
brincavam com bonecas.
O bom velhinho recebia as cartinhas que pediam os presentes –
todas escritas à mão – e as lia com paciência. Anotava tudo sem
esquecer dos endereços. Na verdade ele anotava os endereços
por anotar, pois sabia que não iria errar o presente, era só
deixar qualquer pacote em qualquer casa. Preparava as renas
e o trenó mágico – só podia ser mágico prá poder caber tudo
aquilo - vestia a roupa vermelha e pesada e caia na estrada, digo,
nos céus, as renas voavam. O bom velhinho gostava daquilo.
Só reclamava mesmo é de ter que vir prá cá, um lugar quente,
vestindo uma roupa de esquimó.
Com o tempo as coisas foram mudando.
A presença do velho passou a ser exigida com antecedência
nos Shoppings e grandes lojas. E tudo com contrato assinado:
1-Obrigatoriedade de usar a roupa vermelha e pesada e fazer
cara de velhinho feliz. 2-Não beber durante o trabalho. 3-Ser
paciencioso e sorrisão estampado no rosto. 4-Ser amável
com as crianças. 5-Nem pensar em revidar com um tapão na
orelha daquele moleque chato que, para fazer gracinhas, ficava
chutando-o o tempo todo. Compromisso terrível. De bom,
só o ar condicionado para aliviar o calor da roupa vermelha
e pesada.
E as coisas continuaram mudando.
Hoje, as cartinhas manuscritas e garranchadas já não chegam
32
mais. São tempos modernos, agora, só mensagens pelo
WhatsApp e todas sem erros ortográficos, graças ao corretor
de texto. Verdade que, algumas delas, chegam estranhas e
incompreensíveis, graças também ao corretor de texto. Sorte da
meninada que sabe mexer com a maquininha, azar do velhinho
que foi obrigado a comprar e aprender a usar o celular.
Milhares de mensagens e um único pedido: - Quero um
“Smartphone Apple iPhone 11 pró 256GB”...ou similar.
O velhinho estava à beira dum colapso nervoso, quando chega
uma cartinha aliviando as tensões. Letrinha bonitinha e sem
sinais de corretor de textos: “Querido Papai Noel. Gostaria de
ganhar uma caixa de lápis de cor e que o senhor viesse até aqui
em casa trazer e conversar. Um beijão para o senhor”. Uma
lágrima correu e borrou algumas palavras.
Decidido, chamou um “uber” e despediu-se das renas:
“Vocês ficam aí! A Sociedade Protetora dos Animais proibiu
vocês de carregarem peso”! Deixou a roupa vermelha e pesada
de lado, vestiu uma folgada bermuda enfeitada de bolinhas
vermelhas, pegou o gorrinho e rumou de encontro ao menino
da cartinha, pensando alto:
“... Com certeza as outras crianças não vão sentir a minha
falta. Vão estar, sem conversar, mandando mensagens um prá
outro... EU QUERO MAIS É CONVERSAR! Quem sabe,
até tomar uma cervejinha gelada com o pai dele...
- VAI SER MUITO BOM!!! RÔ! RÔ! RÔ! VOU TER UM
FELIZ NATAL!!!
Laerte Rojo Rosseto é arquiteto e urbanista.
Contato: laerterojo@gmail.com