Mindset Magazine | Ano 1 | Número 1 | Janeiro 2019 Mindset magazine Janeiro 2019A | Page 62

estamos a honrar a nossa história e relação com essa pessoa, que estamos a cumprir a nossa missão de cuidador, que estamos a trazer amor ao momento mais desafiante das nossas vidas… isso traz uma felicidade transformadora! Quando fazemos algo do que tipicamente dizemos que “gostamos”, isso traz alegria e é bom, é fantástico, queremos ficar neste estado ou lá voltar rapidamente. Mas será transformador? Trará novas dimensões da nossa existência? Mostrará mais do que somos? Trará uma elevação? Ambas são necessárias para o ser humano que quer crescer e expandir-se. Em Psicologia falamos de crescimento pós traumático como o fenómeno de aquisição de novas competências/capacidades e adopção de uma visão mais adaptativa da vida e seus desafios, como consequência da vivência de uma experiência potencialmente traumática. Esta felicidade transformadora poderá ser entendida como o movimento de levar a consciência deste potencial de crescimento para o momento presente em que a dor está a acontecer. Assim, equilibrar a dor/infelicidade do momento pela consciência de como isso nos está a elevar além do terreno. O crescimento a este nível é uma experiência existencial (espiritual para quem sentir a ligação a esta dimensão). A consciência dele no momento exigente (ex. quando damos a mão a quem amamos num momento de doença; quando nos superamos num momento de dor; quando por exemplo avançamos numa missão humanitária que nos coloca perante o sofrimento de outros…) poderá ser o caminho para uma visão mais consistente da vida como uma experiência de felicidade. É difícil imaginar que em contextos extremos por exemplo de guerra e caos, seja possível entrar em conexão com esta consciência superior. Mas incrivelmente, há quem o faça… Basta ler “Um Homem em busca de um sentido” que percebemos de que forma Viktor Frankl construiu um significado para sua experiência num campo de concentração Nazi e trouxe a consciência de como se elevaria e de como esta passagem dolorosa da sua vida seria um ponto de partida para uma concretização maior. Vivendo com a dor extrema e o terror, sua e de todos à sua volta, trouxe uma narrativa para essa experiência que lhe permitiu resistir e construir, com orgulho pessoal e momentos fugazes de uma improvável felicidade, um legado que o engradeceria. E engrandeceu. Esta não é a forma de transformação que procuramos, que desejamos, que escolhemos… o que buscamos é a felicidade hedónica, a leve, a que nos faz sorrir, aquela em que facilmente percebemos que a vida tem uma “força feliz” por si mesma! Mas a existência humana acarreta sempre os momentos de dor… esta felicidade de transformação será uma forma amadurecida, resiliente e emocionalmente inteligente de lidar com a inevitabilidade da infelicidade. A nossa luta poderá ser esta, a de buscar a felicidade leve mas aceitar o que nos traz a dor, como forma de nos superarmos e descobrirmos sentidos. Num contexto de dor, ser capaz de ver o amor, de ver os pequenos gestos, de estar grato pelos recursos internos e externos que temos disponíveis para lidar com essa situação, persistir no que está coerente com os nossos valores, prever que a dor não dura sempre e que depois disso fica o orgulho pessoal pela forma como lidamos com ela e ficam novas aprendizagens sobre nós, quem sabe novas competências. Se equilibrarmos estas duas dimensões da felicidade, será mais naturalmente assumida a tal resposta à fatídica questão: és feliz? “Sim, sou feliz, às vezes porque amo, sorrio, tenho prazer e me divirto e outras vezes porque me transformo. Sou feliz, também, quando me transformo.” PATRICIA LABANDEIRO PSICÓLOGA CLÍNICA E COACH gerencia@despertar.com.pt ww.despertar.com.pt MINDSET MAGAZINE | 60