com as quais se defende de tudo e todos, para ter espaço para um abraço. Todos estes nomes são vidas, são histórias reais, são factos, são mudanças. São alterações químicas que aconteceram nos cérebros destas crianças – as hormonas de stress e agressividade( cortisol) foram substituídas pelas hormonas da felicidade e de bem-estar( serotonina). Foilhes oferecida a possibilidade de se sentirem seguros, felizes, amados, esperançosos, tranquilos, cooperantes, bons e capazes. No fundo, deram-lhes a oportunidade de serem crianças – por uma hora, por um dia, por uma semana, ou por um ano inteiro.
Nós, no G. A. S. Porto, temos uma enorme vontade em chegar ao lugar exato onde a transformação acontece: ao coração. E é no coração e pelo coração que lutamos por estas crianças, numa partilha constante, num exemplo desmedido, numa brincadeira sem fim. Sim, nós procuramos mudar o mundo a brincar. A brincar com carrinhos, com bonecas, com cordas ou até com pedrinhas. A brincar com as crianças, com os educadores, com os pais. A brincar com as letras, com os números, com os trabalhos de casa. Mostrar que aprender é bom, que pode ser divertido, que não tem cara de bicho-papão. Para nós apoiar a educação é a solução. É através desta educação que os nossos pequenos adultos em formação poderão encontrar soluções para as suas vidas. Soluções para quebrar os ciclos de pobreza em que vivem.
Em Portugal vivemos uma época difícil relativamente à proteção das crianças. Passaram 27 anos desde a Convenção dos Direitos das Crianças mas ainda há um caminho enorme a percorrer! As comissões de proteção das crianças e jovens, no ano passado, tinham 70 mil casos de risco para resolver. A Eurosat indica que 1 em cada 3 crianças vive em situação de pobreza. A UNICEF diz-nos que somos o 8 º país da Europa com maiores desigualdades entre as famílias com crianças, e ainda acrescenta que metade destes pais têm níveis muito baixos de escolaridade – não tendo tantas ferramentas para sair desta situação e garantir outro futuro para os seus filhos. Como poderíamos não agir quando vivemos num país, num mundo, onde para algumas crianças é negado um início de vida feliz e seguro?
Eu sou uma otimista incurável. Tenho uma fé desmedida nas pessoas, e acredito que é possível revertermos os trajetos de vida das crianças desprotegidas. Faço disto missão de vida, enquanto pessoa, enquanto voluntária, enquanto psicóloga, enquanto investigadora, enquanto
futura mãe. O que as crianças mais precisam não é de bens, é do bem. Precisam de pessoas que lhes dediquem o seu tempo, lhes mostrem que são importantes. Precisam de pessoas que passem tempo com os seus educadores, que criem momentos de partilha com as famílias, que celebrem a versão mais bonita da vida. É nesta ótica que o G. A. S. Porto se assume como Escola de Vida, procurando apostar na Educação como base segura, como o caminho para a mudança, para um mundo mais igualitário, mais saudável e mais feliz. Ao todo, são mais de 1000 crianças que ajudamos a fazer crescer, mas ainda nos faltam muitas mais- vamos devagar mas vamos longe, porque a acreditar e a fazer diferente somos muitos, porque vamos juntos.
Marisa Gouveia
15