Informativo ABECO Informativo No 13 (set-dez 2018) | Page 26

INFORMATIVO ABECO | Edição Nº 13 26 elas não tenham uma formação científica específica e não entendem minimamente como essa evidência surgiu, simplesmente por sua vontade. Em parte, algumas concepções mais relativistas dentro da própria filosofia e sociologia da ciência contribuíram para essa descrença (quero crer que de forma involuntária; ver a seguir), mas certamente há uma forte relação entre aceitar ou não certos fatos científicos e a crença religiosa da pessoa, ou sua orientação no espectro político esquerda-direita. Certamente, podemos e devemos em princípio entender que as pessoas podem, por razões pessoais e de forma livre, simpatizar com diferentes ideologias ou serem convertidas a diferentes crenças religiosas. Mas se essas atitudes envolvem questionamentos sobre a evidência científica (especialmente se isso se relaciona a questões básicas como a forma da Terra ou a evolução como padrão), passa a ser mais difícil lidar com essa liberdade de opiniões. Passamos a discutir de forma mais profunda questões de natureza da evidência e da própria racionalidade na sociedade moderna. As implicações dessa visão “pós-moderna” e dessa descrença na atividade cientifica são imprevisíveis em médio- longo prazo, considerando o tamanho do impacto que decisões erradas e não-científicas podem ter atualmente e a nossa capacidade tecnológica. O exemplo das mudanças climáticas e do chamado aquecimento global, que é um pouco mais sofisticado em termos de avaliação da evidência científica do que discussões sobre criacionismo e Terra plana, pode ser colocado no mesmo contexto, mas certamente é o mais perturbador de todos (dadas as consequências potenciais em escala planetária). Em síntese, precisamos aprender (e ensinar aos nossos estudantes) não só a nos comunicarmos de forma eficiente no século XXI, mas precisamos também pensar em como ultrapassar barreiras e comunicar a ciência para pessoas que resistem, por diversas razões, a essa forma de pensar. A solução não é simples, mas talvez precisemos, considerando todos os problemas acima, repactuar nosso modo de pensar e retomar o iluminismo de Hume, Kant, Spinoza, Voltaire, Smith, dentre tantos outros, como sugere Steve Pinker, para que a sociedade passe a se comportar de forma mais racional e entenda melhor a importância da ciência como base da sociedade moderna.