Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 81
IMAGINE-SE na sua casa, de madruga-
da e só. Todas as luzes estão apagadas. Você
ouve um barulho que te deixa com extrema
agonia, se levanta e vai tentar descobrir o
que é. O que acontece nesse meio-tempo é
Jacques Tourneur.
A simples existência de Sangue de Pan-
tera (Cat People, 1942), A Morta-Viva (I
Walked With a Zombie, 1943), O Homem-
-Leopardo (The Leopard Man, 1943) e o tar-
dio retorno ao gênero, A Noite do Demônio
(Night of the Demon, 1957) sob a autoria do
mesmo Tourneur parece configurar um novo
paradoxo dentre os quais são tão caros pelo
diretor, dada a natureza formal ímpar e obs-
cura de cada uma das obras e a espontaneida-
de com que as conexões temáticas entre elas
se fazem tão intensas.
Sendo o próprio Tourneur um estranho
longe de sua terra natal, desenvolveu uma
sensibilidade para tratar fidedignamente das
virtudes e dos temores dos alheios, faceta
de seu caráter que é perceptível nos filmes
de todos os gêneros fílmicos nos quais in-
gressou. Esse caráter de profissionalismo
versátil que o tornou famoso por “jamais ter
recusado um roteiro” é também crucial para
o desenvolvimento de sua obra a partir de re-
corrências do choque entre um personagem
principal ou conjunto de personagens e lo-
calidades com fortes contrastes de vivência
e percepções.
Chris Fujiwara, autor do mais ampla-
mente difundido objeto de estudos especi-
ficamente sobre Jacques Tourneur, o livro
Cinema of Nightfall pontua acertadamente
em uma conversa com o cineasta português
Pedro Costa sobre o diretor de A Noite do
Demônio, fragmentos encontrados nos per-
sonagens de cada um dos quatro filmes tra-
tados aqui, segundo o autor, há personagens
nestes filmes que enfrentam um processo co-
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lossal de contradição, eles estariam tentando
renegar sua essência, e cita como exemplo o
psicólogo Holden, vivido por Dana Andrews
em A Noite do Demônio, que ao longo do fil-
me tentará negar o que o espectador já sabe
ser verdade.
A proeminência com a qual os traços
estrangeiros de Irena, personagem protago-
nista de Sangue de Pantera são ressaltados
secretam a tônica do tratamento de Tour-
neur para o fator forasteiro em seus filmes
de horror dali em diante. Em um ambiente
desconexo do costumeiro, ou longe do qual
se sentiriam verdadeiramente conectados,
esses personagens reagem de modo similar,
com desconfiança mordaz, curiosidade ful-
minante e revolta interior. É assim com a
própria Irena, descendente de refugiados do
leste europeu, com a genuinamente america-
na família Holland, bem como a enfermeira
Betsy de A Morta-Viva, radicados no caribe,
e com o doutor Holden, também americano
desembarcando em Londres. A situação em
O Homem-Leopardo é difusa e transitória,
mas será contornada mais adiante.
Na tangente da problemática dos foras-
teiros está a dinâmica entre o posicionamen-
to moral vigente na localidade versus a carga
pessoal do estrangeiro diante das questões
do sobrenatural. Esse conflito é o estopim
primordial para o que irá desembocar na su-
gestão do caos que precede o horror. Via de
regra, quando um destes prevalecer o outro
entraria em colapso. No caso de Sangue de
Pantera, os personagens que convivem com
Irena são céticos em relação ao sobrenatu-
ral, e o horror vai se construindo ao largo
da repressão que a personagem impõe a si
mesma ao encerrar a bestialidade oriunda
de seus antepassados, frente à sociedade
moderna americana. Se em Sangue de Pan-
tera a personagem é a perturbadora em um
ambiente anteriormente estável, tanto em A
Morta-Viva quanto em A Noite do Demônio