Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 46

com os fogos ao fundo, é como o olhar encan- tado de Mottola para os filmes que alimen- taram sua juventude. A tristeza estampada em Joel vem da consciência de que o sonho acaba e que depois do acender das luzes, precisava sempre voltar para sua verdade. Frigo simboliza uma vulgaridade que James nega e a qual, estando nele, nunca quis ad- mitir, sendo dela sempre a vítima. Aceitar a vulgaridade é aceitar a vida e é com esta ideia que pela primeira vez James retribui o soco nos testículos. Num engraçado rito de passagem James abandona a autoidealização romântica para se assumir como pessoa real num mundo real. EM SE ENTREGA (1º9’42” – 1º11’22”) HENRY MELVILLE (1º31’43” – 1º33’50”) James descobre o segredo de Em e acor- da bruscamente do sonho que viveu nas úl- timas semanas. O tempo neste momento se dilata, se perde, desliza de sua teleologia. Tudo vai mal até ter uma visão que amadu- rece sua atitude, recolocando a narrativa nos trilhos. Conversando com Joel sobre a falta de sentido da vida, James observa longa- mente Frigo e neste instante decide mudar. OLHOS NOS OLHOS (1º38’00” – 1º40’00”) Traído pelo sonho, James reencontra Em numa tempestade em Nova Iorque, no cenário mais hostil possível. Mas James tem fome de vida real e é disto que trata a última cena do filme. Em oferece para o ensopado James o uniforme de Adventureland, o qual ele recusa bruscamente, recusando também os falsos sonhos, as ilusões, os fogos de arti- fícios de John Hughes. O último plano do fil- me é uma resposta perfeita ao primeiro. Aqui não existe contracampo para dividi-los. Um James absolutamente seguro olha nos olhos não mais da garota dos seus sonhos, mas da mulher da sua vida. Após a briga no parque, Em se afasta do grupo levando James. Sob o olhar estrábico e desencantado de Joel (olhar do diretor), o ca- sal se dirige para o decrépito deposito do par- que, onde Em confessará (de maneira lacônica e perturbada) o quanto gosta de James. Em está apaixonada, mas é uma perso- nagem fechada em seus segredos, sombria, e a atitude da câmera respeita a solenidade do momento, escondendo-se atrás das ferra- gens. A cena inteira é filmada de longe, atra- vés de zooms, e a iluminação gradualmente desvanece. O cenário escurece contaminado pelas trevas da personagem até culminar num grande fade em que o parque inteiro se apaga.