Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 28
ROBERT BRESSON me parecia jovem
quando este texto começou a ser escrito, seus
personagens mais constantes e suas trajetó-
rias pareciam apontar para um senhor inte-
ressado em captar o que os jovens absorviam
do mundo e retratá-los. Hoje discordo deste
ponto de vista, ele é sim um senhor, realizou
seu primeiro filme aos 34 e o último aos 82.
O contato com as obras mostram que alguém
que olha para o futuro e não encontra nada,
não encontra respiros e tenta encontrar outra
saída. Os jovens estão aí por outra razão que
não um mero interesse observacional.
Suas obras estão permeadas de jovens
adultos e adolescentes que permitem explo-
rar os potenciais de uma sensibilidade do
olhar que ele denomina cinematógrafo, de
maneira a diferenciá-lo do cinema, segun-
do ele, mais próximo do teatro filmado. Ele
diz do cinematógrafo nada ter a ver com um
espetáculo, mas com uma escrita. Sua aten-
ção estava voltada para detalhes ordinários
do cotidiano, expressões divinas presentes
em pequenos gestos (é importante frisar que
Bresson é um cineasta cristão, ou: “meus
filmes são religiosos porque sou religioso”).
Há nesse meio uma intensa busca pelo real
através da ficção, uma busca da unidade, que
o faz adotar não somente meios cinemato-
gráficos muito particulares, onde a conten-
ção e parcimônia são a regra (muitas vezes
chamado de minimalista), como também as
atuações devem ser drasticamente distintas
das do teatro, desdramatizadas, nas palavras
do crítico francês André Bazin, cabe aos
modelos que atuam: “Não é pedido (...) para
interpretar um texto (...) e tampouco para vi-
vê-lo: mas somente para dizê-lo. (...) em seu
rosto não é o reflexo momentâneo do que ele
diz, e sim uma permanência de ser, a másca-
ra de um destino espiritual”. (BAZIN, 1991).
Bresson realmente via o cinematógrafo
como uma nova arte, uma visão de mundo
que poderia um dia tornar-se algo grandioso.
É raro encontrar em sua filmografia per-
sonagens principais de idade avançada e, in-
versamente, adolescentes figuram sempre em
evidência. É graças à ajuda de um deles que o
tenente Fontaine de Um Condenado à Morte
Escapou (Un Condamné à Mort S’est Échap-
pé ou Le Vent Ssouffle où il Veut, 1956) con-
segue sucesso em sua fuga. O padre de Diário
de um Pároco de Aldeia (Journal d’un curé
de campagne, 1951), abandonado por todos,
tem um raro momento de acolhimento justa-
mente com sua jovem aluna. É no entanto, na
segunda parte da carreira do diretor francês
que encontramos um tratamento mais direto
para com tais pessoas. A seguir, Bresson jus-
tifica sua opção por adolescentes e o crítico
francês Jean Sémolué denota o caráter geral
da segunda parte de sua filmografia.
“Adolescentes são muito mais flexíveis
que adultos. Eles são interessantes por seu
mistério, por sua força interior. O que acho
interessante é expor uma criança, uma jovem
garota, a uma situação sórdida, desagradá-
vel, e ver como ela reage.”
“Depois de pickpocket, quer se trate de
conflitos claramente delimitados (...) quer de
lutas mais esparsas, difusas, em filmes mais
prolixos como O Diabo, Provavelmente (Le
Diable Probablement, 1977) (...) os persona-
gens não escolhem seu caminho. Eles se veem
arrastados para estradas movediças, que um
horizonte sinistro cerca por todos os lados. Ao
ciclo de empreendimentos vitoriosos sucede o
ciclo de lutas inúteis, das resistências impos-
síveis. (...) Menos inteligentes, menos hábeis e
menos ativos que os personagens predecesso-
res, eles permanecem combativos e corajosos,
mas, na maioria das vezes, ficam acuados à
fuga ou ao suicídio.” (SÉMOLUÉ, 2011).
NA PÁGINA AO LADO, NO CENTRO, ROBERT BRESSON. NO ALTO, BRESSON COM A ATRIZ NADINE NORTIER (MOUCHETTE).
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