Governança Democrática - 3ª Edição | Page 20

social, teve como consequência o aparecimento do que G. Lipotevesky, acertadamente, denominou sociedade da decepção, em seu sentido mais amplo, e também da desesperança ante o futuro. Esses indivíduos decepcionados, autoinsuficientes, com escassos vínculos sociais e cada vez mais segregados da esfera pública, encon traram no mercado financeiro global, guiado pela ânsia de lucro em curto prazo, e em produtos creditícios subprime, o que nem o Estado, nem as redes familiares e sociais lhes ofereciam: uma miragem de satisfação das suas necessidades e aspirações. O resto é conhecido. Os títulos subprime causaram falência e desconfiança em todo o sistema financeiro global. Os Estados tiveram que resgatar os bancos, gerando ou agravando os seus déficits e dívidas, o que resultou, na União Europeia, que muitos deles elevassem suas taxas de juros para financiar a sua dívida. Grécia, Portugal e Irlanda chegaram à falência. O que levou, por não ter o Banco Central Europeu (BCE) agido diretamente como avalista da dívida e resgatado os Estados em situação falimentar (como fizeram os Bancos Centrais da Grã-Bretanha e dos EUA), a que todos os demais Estados o fizessem. Isso agravou mais ainda o seu déficit e sua dívida, ficando, como no caso de Espanha e Itália, também eles em situação muito delicada ao se depararem com seu déficit em função dos gastos com o resgate. Em resumo, a ruptura social, institucional e moral gerou as bases da crise financeira. A maneira como se enfrentou essa crise no âmbito da UE, tentando reduzir o déficit público sem optar por investimentos para o crescimento econômico e empoderamento social, levou a um círculo vicioso: a despesa pública e os investimentos foram reduzidos e os impostos aumentados, de modo que a atividade econômica contraiu-se, assim como foram reduzidos os direitos sociais financiados pelo orçamento público. Tal contração, por sua vez, levou a um novo déficit público e a uma nova dívida, com o que se agravaram também 18 Governança Democrática: Construção coletiva do desenvolvimento das cidades