Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 95

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
a fraternidade kantiana se deve aos indivíduos não com base em status sociais hierarquicamente definidos, uma forma típica das sociedades pré-modernas, mas no fato de serem pessoas, agentes morais titulares de racionalidade e liberdade, prescindindo de sua diversificação no mundo empírico e contingente e, portanto, como tais“ fins em si”. Sob este aspecto, o conceito kantiano“ parece verdadeiramente muito próximo daquele que intuitivamente temos em mente quando apelamos ao respeito no debate público de hoje”. 36
A fraternidade-respeito é moderna também sob outro aspecto. O respeito é um sentimento sui generis, cujo fundamento não é a sensibilidade, mas a razão. Ele surge da percepção sensível da negação das paixões egoístas e da determinação positiva com base na lei.“ O mundo moderno – observou-se – nasceu da separação entre a ética e os sentimentos, sejam altruístas ou pessoais. As virtudes foram objetivadas em regras impessoais e imparciais de conduta”. 37 Para superar o particularismo da amizade, da família, da parentela, da preferência, a sociedade moderna precisa de uma ética que não se baseie no sentimento, mas na afirmação de um dever:“ Só pondo de lado as preferências, o funcionário por trás do guichê, o médico no hospital, o juiz no tribunal agem moralmente [...]. A imparcialidade da administração moderna é uma criação da ética kantiana, que coloca em primeiro lugar o dever”. 38
Afirmada como princípio da razão legisladora, a fraternidade-respeito abandona a linguagem do amor para assumir a linguagem moderna do direito-dever.
36 I. Carter, A. E. Galeotti, V. Ottonelli( orgs.), Eguale rispetto, Milão, Bruno Mondadori, 2008, p. XIV. 37 F. Alberoni, L’ amicizia, Milão, Garzanti, 1984, p. 46. 38 A. Del Noce, La morale comune dell’ 800 e la morale di oggi, in idem, Il problema morale oggi, Bolonha, Il Mulino, 1969, p. 91; posteriormente em idem, L’ epoca della secolarizzazione, Milão, Giuffrè, 1970, p. 181-201.
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