Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 89

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
volência recíproca, baseado no príncípio da igualdade, tanto a mim quanto os outros; ela me permite, por conseguinte, querer bem a mim mesmo, sob a condição de que eu queira bem a todos os outros, porque só nesta condição minha máxima se qualifica como legislação universal, na qual se baseia toda lei do dever”. 24
Só a razão legisladora faz do amor ao próximo um dever idêntico para com todos os homens. Na Crítica da razão prática, interrogando-se sobre o que significa o mandamento cristão“ Ama a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, Kant responde:“ Amar a Deus, neste sentido, significa seguir de bom grado seus mandamentos, amar o próximo significa pôr em prática de bom grado todos os deveres para com ele” e imediatamente adverte sobre a dureza de tal mandamento, na medida em que,“ se uma criatura racional pudesse alguma vez cumprir inteiramente de boa vontade todas as leis morais, isto significaria que nela não se encontraria nem sequer uma vez a possibilidade de uma inclinação que a impelisse à transgressão daquelas leis, já que vencer tal inclinação custa sempre um sacrifício ao sujeito, que, portanto, necessita de uma violência sobre si, isto é, de uma coação interna, coisa que não se faz inteiramente de boa vontade”. 25
Analisando esta passagem de Kant, Hegel apreende a profunda diferença de significado que o imperativo cristão sofre na interpretação kantiana:“ Sua [ de Kant ] observação segundo a qual o amor – ou, conforme o significado que acredita dever atribuir a este amor, a realização de bom grado de todos os deveres – não pode constituir o objeto de um mandamento, tal observação por si só não se sustenta, já que no amor toda ideia de dever desaparece: e até a homenagem que presta a esta sen-
24 Kant, Sul detto comune: questo può essere giusto in teoria, ma non vale per la prassi, in idem, Scritti di storia, politica e diritto, cit., p. 137.
25 Kant, Critica della ragione pratica, cit., p. 181.
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