Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 63

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo Em sua origem, de fato, a tolerância comportou não só a independência da esfera política da religiosa, “mas também um pacto entre as confissões cristãs, que, embora hajam lutado ferozmente por muito tempo, têm o mesmo Livro, o mesmo fun- dador, um núcleo comum de dogmas. E, coisa não indiferente do ponto de vista da convivência, o mesmo dia do Senhor, mais ou menos as mesmas festas e os mesmos símbolos, a mesma falta de tabus alimentares”. 51 Agora, ao contrário, estamos numa situação em que grupos consideráveis de imigrados de fé diversa, em nossas sociedades, vivem a religião, em meio às dificuldades da imigração, como traço identitário de fundamental importância: “Os muçul- manos têm outro fundador, outro Livro, outros dogmas, outro dia festivo, outras festas, tabus alimentares. Para eles não existe o conceito da separação entre política e religião. Têm também algumas dificuldades de captar a distinção ocidental entre público e privado”. 52 Neste contexto, o debate sobre a tolerância se entrelaça não só com as questões de justiça e de luta contra o preconceito e a discriminação, mas também com a do multiculturalismo. Neste ponto até agora se registram duas posições ética e politicamente relevantes. Uma é a neoliberal, que considera titu- lares dos direitos os indivíduos e a tolerância como necessária estratégia de recomposição do espaço político em torno do prin- cípio fundador das democracias hodiernas, o pluralismo de valores. A outra é a neocomunitária, que considera os grupos étnico-religiosos como sujeitos de direitos coletivos e a tole- rância como estratégia necessária para obter o reconhecimento ativo das diferentes identidades. 51 C. Mancina, Laicità e politica, in G. Boniolo (org.), Laicità. Una geografia delle nos- tre radici, Turim, Einaudi, 2006, p. 8. 52 Idem, p. 8. 61