Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 54

Maria Rosaria Manieri um homem ou uma mulher e que diz respeito só a “ele” ou a “ela”, ou melhor – precisará John Stuart Mill –, “diretamente e em primeiro lugar”, porque “é evidente que toda coisa que se refere a um indivíduo também se refere aos outros”. 31 Múltiplos são, então, os significados que na perspectiva moderna a tolerância assume. Tolerância é admissão do plura- lismo e da diversidade; é recusa de toda forma de paternalismo e autoritarismo nas relações com os outros; é reconhecimento da inviolável liberdade de cada qual e de todos; é pré-requisito da democracia, que não por acaso se caracteriza como substi- tuição das técnicas da força pelas técnicas da discussão, do diálogo e da persuasão. Mas ela é, sobretudo, a resposta da modernidade aos con- flitos religiosos. Nos termos de reconhecimento da mútua com- patibilidade entre vários princípios de identificação coletiva de comunidades de pessoas, territorialmente definidas e em limites designados, a tolerância é parte substancial da liberdade liberal. O paradigma específico desta liberdade reside, precisamente, no fato de que ela “permite a indivíduos inseridos na mesma comu- nidade política possuir comum lealdade civil e, ao mesmo tempo, divergente comunidade de devoção ou de compartilhamento com outros da salvação”. 32 Subestimar este significado da tolerância, “remetendo-o historicisticamente às condições particulares de uma época já distante, desconhecedora das conquistas evolutivas de nossos sistemas democráticos muito avançados”, seria – afirma Mar- ramao – um erro fatal. 33 31 Idem, p. 15. 32 S. Veca, Dell’incertezza. Tre meditazioni filosofiche, Milão, Feltrinelli, 1997, p. 202. 33 Marramao, Passaggio a Occidente, cit., p. 203. 52