Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 52

Maria Rosaria Manieri leis imperfeitas, todas as nossas opiniões insensatas, todas as nossas condições tão diversas a nossos olhos e tão iguais diante de ti; que todas estas pequenas nunças que distinguem estes átomos chamados homens não sejam sinais de ódio e perseguição”. 25 A tolerância é a única solução verdadeiramente humana para as guerras de religião. Como o problema não é só religioso, mas também e sobretudo político, o fio condutor da análise está voltado para demonstrar quais são os fundamentos da pacífica convivência civil entre os homens dentro do Estado. A tole- rância, então, emerge como a condição fundamental, necessária para neutralizar os conflitos entre os homens e realizar uma reestruturação da ordem política, jurídica e social capaz de asse- gurar uma livre e pacífica convivência. Assumindo, discutindo e reinterpretando todo o prece- dente debate teológico, filosófico e político que, de Agostinho até o século XVIII, se desenvolve em torno deste conceito, Voltaire coloca a ideia de tolerância como fulcro de uma concepção moderna da política, chegando a um radical processo de neutra- lização e secularização do laço político entre Estado e Igreja. Não mais concessão soberana, a tolerância é por ele afirmada como categoria estrutural do Estado moderno; uma categoria universalista, de valor claramente positivo, baseada na fraterni- dade do gênero humano. 26 Ao reler o Tratado – observa Marramao –, deparamos, sur- presos, com motivos inteiramente diferentes daqueles imaginados ou cunhados deliberadamente por certos porta-vozes atualís- simos de um anti-iluminismo afetado: “Nada do supremacismo filo-ocidental hoje em voga. Nada da orgulhosa contraposição entre ‘nós’ e os ‘outros’. Nada da presunçosa reivindicação dos 25 Ibidem. 26 Lanzillo, Voltaire. La politica della tolleranza, cit., p. 116. 50