Maria Rosaria Manieri
tios já podiam ser mestres”. 17 O cristianismo vai além: sai dos recintos familiares, derruba barreiras e distinções mas também laços particulares, e traduz esta abertura como dever universal do exercício prático da caridade.
A caridade não é genérica philantropia, mas ajuda e assistência aos irmãos infelizes e necessitados, ainda que diferentes, porque todos feitos à imagem e semelhança de Deus e, ao mesmo tempo, criaturas finitas, expostas ao mal, ao sofrimento e à morte, a precisar, todos, da ajuda uns dos outros. O cristianismo abre-se à proximidade universal, recíproca e gratuita.
O traço universalista da fraternidade, sua desconexão da proximidade imediata, física e de pertencimento, é o legado precioso do cristianismo à modernidade.
A universalidade – afirma Kant – torna“ amável” 18 o cristianismo à modernidade. Mas a universalidade também constitui o obstáculo no qual se experimenta e contra o qual muitas vezes se estilhaça a modernidade. Ela é, como diz Dostoievski,“ a principal pedra de tropeço do Ocidente” cristão. 19
17 Idem, p. 91.
18 A lição do cristianismo é a de amar os outros, todos os outros, e fazê-lo de boa vontade. Como religião universal, ele é amável no sentido de que se esforça“ para fazer amar o cumprimento do dever e o consegue, porque seu fundador não fala como déspota cuja vontade exige obediência, mas como amigo do homem”( E. Kant, La fine di tutte le cose, Turim, Bollati Boringhieri, 2006). A amabilidade como liberalidade é a característica sobre a qual, segundo Kant, o cristianismo construiu-se a si mesmo( cf. L. Tundo, Kant. Utopia e senso della storia, Bari, Dedalo, 1998, p. 15).
19 Das três bandeiras da Revolução Francesa, a da fraternidade é“ a mais curiosa e, deve-se reconhecê-lo, constituiu até hoje a principal pedra de tropeço do Ocidente. O homem ocidental, de fato, discorre sobre esta irmandade como uma grande força motriz da humanidade e não se dá conta de que a irmandade não poderá ser encontrada em parte alguma enquanto não existir na realidade. Na natureza francesa e, em geral, na ocidental, não se encontra irmandade; encontra-se, ao contrário, o princípio pessoal, o princípio de restar por conta própria, da autoconservação intensiva, da autossuficiência, da autodeterminação do próprio eu pessoal, da contraposição deste Eu à natureza inteira e a toda a humanidade restante”( F. M. Dostoievski, Note invernali su impressioni estive, Roma, Riuniti, 1984, p. 71-73).
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