Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 39

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
próximo. Quem é o próximo a ser amado, quem deve ser o objeto do amor? Os compatriotas? Os irmãos na fé? Os justos? Os outros em geral?”. 9 E é uma pergunta tendenciosa porque, se não se conhece o próximo a ser amado, como é possível amá-lo?
Para os hebreus, o conceito de próximo( plesìon em grego, prope em latim,“ perto”) era muito restrito. No texto do Levítico,“ próximo” é sobretudo o“ irmão” israelita( Lv. 17, 8.10.13, 19, 34). Nas escolas rabínicas de visão mais ampla, nesta categoria se insere todo aquele que habita o país( Lv. 19, 13-18); ao contrário, nas interpretações mais restritas só se considera próximo quem pertence à mesma tribo e ao mesmo clã familiar. Na opinião dos Escribas, só é próximo quem observa a lei. 10
Plesios como proximus, assim, é o compatriota, o companheiro, o aliado, o amigo e o parente. A tradição antiga, mesmo quando designa o estrangeiro,“ concebe-o sempre como ligado a nós, ou pelo símbolo da hospitalidade, ou por relações de confiança recíproca garantidas por pactos, e como precursor de acordos úteis às partes”. 11 A fraternidade cristã, que emerge da parábola citada, excede esta dimensão e supera imediatamente todo o repertório da casuística teológica.
O Samaritano é um estrangeiro, pertencente ao povo desprezado que habita os montes de Samaria; é um heterodoxo por fé e um mestiço por raça, o qual, no entanto, se aproxima do outro, que não conhece, que lhe é estranho, mas de cujo sofrimento ele participa e se encarrega. E o faz sem pedir nada em troca.“ Sequer se deixa reconhecer e não fornece nenhum sinal, nenhum símbolo, para depois poder ser encontrado”. 12
9 E. Bianchi e M. Cacciari, Ama il prossimo tuo, Bolonha, Il Mulino, 2011, p. 39. 10 Ver B. Moriconi, Farsi prossimo, Roma, Città Nuova, 2006. 11 Bianchi e Cacciari, Ama il prossimo tuo, cit., p. 86. 12 Idem, p. 90.
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