Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 141

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
tempos que correm são tempos sem sintonia com nossos próprios valores e princípios, bem como com nossas instituições. Tempos em que as grandes narrativas progressistas da modernidade se esboroaram.
O problema não é mais o comunismo nem o juízo a dar sobre ele depois de 1989.“ A visão de uma organização social total, a fantasia que animou os utopistas, de Sidney Webb a Lenin, de Robespierre a Le Corbusier, jaz por terra em ruínas”. 72
O comunismo representou uma narrativa que pretendia ser escorada pela história. O coração de tal narrativa estava constituído pela ideia em torno da qual veio se estruturando a modernidade: ou seja, a ideia da possibilidade de um progresso contínuo graças ao qual a humanidade avança estavelmente, ainda que de modo irregular e ambivalente, rumo a maior liberdade, igualdade, prosperidade ou paz. Uma ideia explicitamente formulada no curso da modernidade sob formas diversas:“ Para Hegel, o mundo se tornava cada vez mais racional; para Kant, mais pacífico; para Paine, mais conforme aos princípios do direito natural; para Tocqueville, mais igualitário; para Mill, mais livre e razoável; para Marx, talvez, todas estas coisas juntas”. 73
Por isso, o colapso do comunismo teve tanta importância, a ponto de fazer amadurecer a convicção de que, com ele, a longa marcha da história tivesse chegado ao fim. Como observa Tony Judt, junto com o comunismo caiu algo mais do que um punhado
ca triunfante do liberismo, está representado, segundo Derrida, por desemprego, crescente exclusão da vida democrática, guerra econômica e incapacidade de dominar a realidade do livre mercado, agravamento da dívida externa de Estados já pobres, disseminação de armas atômicas e guerras interétnicas, poder crescente de Estados-fantasma, como a máfia. Por isso, o tempo está confuso, simultaneamente desregulado e alucinado. O tempo está fora dos eixos( hors de ses gonds), como diz Hamlet( p. 27). 72 Judt, Guasto è il mondo, cit., p. 107. 73 W. Brown, La politica fuori dalla storia, Roma-Bari, Laterza, 2012, p. 6.
139