Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Página 138

Maria Rosaria Manieri
futuro no qual“ as fontes da riqueza social fluirão em toda a sua plenitude” e o homem será capaz de responder ao amor com o amor; um futuro no qual poderá cessar a oposição à comunidade fraterna por parte da“ natureza bruta”, com seu“ descomedimento”, seus“ baixos interesses”,“ o sentido do ter”. Ao contrário, é na preparação das condições voltadas para fundar esta humanidade melhor que o socialismo real toma o caminho da repressão e dos gulags, tal como a revolução iluminista toma o do terror e da guilhotina. A queda do socialismo real assinala o fracasso trágico de uma visão política que ambiciona construir artificialmente, por assim dizer, o indivíduo fraterno, o indivíduo sempre e invariavelmente em sintonia com a ordem comunitária, guardião dos valores superiores da comunidade.
Em sua obra, Marx muitas vezes sublinha como o homem que produz impelido por necessidade, interesse egoísta e avidez de enriquecimento, e o homem que produz sem outro objetivo além de exteriorizar seus“ dotes criadores” não são o mesmo homem. Ele vê o egoísmo individual ora como o resultado de precisas condições históricas, suprimível com o cancelamento das mesmas, ora como o pressuposto mesmo do desenvolvimento. Nesta contradição não resolvida Ágnes Heller apreende a origem do coletivismo econômico do socialismo real, que desemboca na ditadura sobre as necessidades. 66
Para Marx, o conflito entre egoísmo e abnegação é próprio da sociedade burguesa capitalista e é a expressão da contradição entre as leis da economia política e as normas da moral, a que é impossível obedecer simultaneamente. Os antigos não conheciam tal conflito, que é próprio do capitalismo. Por esta razão, contra as morais declamatórias Marx indica a via prática de superação deste capitalismo.
66 A. Heller, La teoria dei bisogni in Marx, Milão, Feltrinelli, 1974.
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