José Pacheco
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«[...] embora eu o estranhe às vezes .» Nuno Ramos , Ó
Um livro muito belo , chamado " Ó ", que , por qualquer razão , brilhou meteoricamente e com injusta rapidez desapareceu , contém este inesquecível incipit : " Meu corpo se parece muito comigo , embora eu o estranhe às vezes ." Não me lembro de nenhum paradoxo que me tenha acertado tão fulgurantemente . É verdade que aquilo que qualquer um de nós trata por " eu " se aloja secretamente em cada corpo . Pode António Damásio provar que não há eu que não seja um mero produto segregado fisicamente , que , ainda assim , para nós , uma infranqueável distância separa , como duas realidades distintas , o " si " e o corpo . ( Bom dia Descartes ). "[...] se não quisermos chamar-lhe " alma ", dizemos que existe uma pessoa dentro de nós que é mais importante do que o corpo do qual é feita ", lembra Melanie Challenger .
Se me reconheço , todavia , no corpo ( tanto quanto posso conhecê-lo ), ele é , para mim , sobretudo , um conjunto de forças que uso ou penso ser capaz de usar . Parece-se muito comigo , é certo ; mas o estranhá-lo " às vezes " é igualmente certo .
Nuno Ramos , autor de " Ó ", quer referir-se ao envelhecimento . Nunca dou ao corpo a idade que tenho , primeira diferença entre mim e " meu " corpo . Sou sempre mais jovem do que ele , ou sem idade , como se eu fosse da ordem da eternidade e o corpo da ordem da temporalidade . Mais do que o medo da morte , vejo aqui a origem da crença numa alma imortal . E contudo , o corpo impõe-se . Vai-se impondo , vai pesando . Daí a estranheza . Já não consigo fazer o que conseguia , já nem me reconheço no frustrante reflexo que se barbeia , no espelho , ao mesmo tempo que eu . O corpo torna-se um daqueles amigos do facebook , que perdemos de vista em jovem , e reencontramos numa página com o deprimente retrato de um velho . Minha mãe dizia , chorando : " Estar tão bem de cabeça e tão incapaz de corpo !" E , para dentro , chorava com ela , perguntando-me se seria , de facto , preferível uma degradação mental , como um leve entorpecimento , que acompanhasse a redução das forças físicas .
Mas " meu corpo se parece muito comigo " pode abrir-nos outros caminhos . Por exemplo , para introduzir uma nota de optimismo : a ideia de que o corpo me exprime , me traduz , me reflecte , de formas que eu próprio não imagino . Podemos andar com máscara durante a epidemia : se não taparmos os olhos , está lá , verdadeiramente , tudo o que eu sou .