E foi assim que o Bisavô Salvador começou a sua prática médica lá e que a minha Avó nasceu e foi batizada nessa terra . Depois viveram toda a vida em Santarém .
O Cértima é um riozinho de brincar ; é mais um riacho afogado em silvas que de vez em quando emerge e canta entre seixos numa escoada incansável . Mas é o rio que moldou este vale , que escavou e transportou , que viu gente a nascer e a morrer desde há milénios – há um olival perto chamado as Antas , e uma das pontes por cima dele é uma lage que parece mesmo o teto de uma anta . Não se pode navegar o Cértima , é pena . Navegar um rio é uma constante dos meus sonhos , uma felicidade sem paralelo de conhecer terras mágicas . Mas só as lavadeiras agradeciam ao Cértima o favor das águas , entre a roupa torcida e cheia de sabão com que chicoteavam os grandes pedregulhos perto da margem . Um dia , depois de um período de chuva intensa e diluviana , o rio transbordou – seria em 1960 ? Sim , a 25 de Outubro de 1960 . Da casa , via-se agora um grosso cordão cor de tijolo que era o rio a galgar o fosso onde habitualmente corria . Aquilo atraiu imensa gente , e lembro-me de ir com o Avô Albano para ver aquela corrente de água desaustinada , a cachoar , a espumar e a arrastar tudo à sua passagem . Chegavam notícias da estação inundada , dos carris debaixo de água .
Quando havia trovoada , íamos para a janela da casa da costura virada a norte . Íamos vendo os relâmpagos , esperávamos pelos trovões , e o medo que se tem engole-nos por completo , o mundo pode acabar naquele instante . Os ribombos ameaçavam fraturar o céu de cima a baixo , mas a minha Mãe ia à despensa do rés do chão buscar um raminho de alecrim seco , que queimava enquanto ia recitando o Santa Bárbara bendita / que no céu estais escrita / com um raminho de água benta / livrai-nos desta tormenta …, e a cantilena agradavanos , não porque acreditássemos na intervenção da santa , apenas porque era um ritual de gestos e de sons a acolchoar a tarde de chumbo e a torná-la numa festa inesperada . E no entanto a tempestade que recordo com absoluta precisão foi quando a minha Mãe teve de ir buscar as minhas irmãs à escola , tinha eu 4 anos . Era muito perto , mas o tempo estava tão mau , com tal granizo e vento , que ela resolveu ir e deixar-me sozinha . Fiquei no meu quarto , com o nariz encostado ao vidro , a olhar o gordo granizo branco que cobria o chão . O céu pela janela oeste era uma aguada de negro , e eu perguntei-me se os postes elétricos do Limarinho ganhariam vida e começariam a andar para me vir buscar . Um , sobretudo , com a forma de um monstruoso agá , causava-me um terror especial . Até nos postes elétricos há hierarquias .