Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 9

Marco miou como se pedisse desculpa, ou talvez como uma estratégia de se salvar ao castigo. Afinal ter ido à travessa das rabanadas era uma prova de que gostava muito dos doces da avó. Agora ficas aí a ver-me comer. Se te portares bem, podes sair e vir receber um pedacinho. Marco deixou-se estar muito quieto. O castigo durou o tempo suficiente para ficar cheio de comichão e a avó logo tratou de lhe acenar com a rabanada prometida. Este Natal vais ser o provador oficial de rabanadas, mas ai de ti que voltes a roubá-las. Ficas a dormir na rua. Há quem diga que os gatos são dos animais mais inteligentes da Criação. Afinal, não há bichos tão livres e aventureiros e capazes de apreciar um doce com tanta alegria. Marco deu um par de turras na mão da avó como se estivesse a prometer-lhe não voltar a roubar ou então apenas para receber mais uma rabanada logo em seguida, pois se havia doce que lhe enchia as medidas era aquele, quentinho, fofinho e com cherinho a canela.

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