Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 8

de chinelo no ar. Anda cá que já te conto os carraços. - Tentou acertar-lhe com a ponta macia da pantufa, mas só foi capaz de lhe passar uma corrente de ar na ponta do focinho branco e cinzento. - Não me olhes com esses olhos sonsos. Conheço bem a tua raça de gatos vadios. Só porque te trato como um príncipe não penses que tens direito a fazer tudo o que te apetece! Um gato também precisa de seguir as regras. Marco escutava agora com muita atenção como se entendesse cada palavra do sermão da avó. Esperou que avó se distraísse e num salto de lince aterrou no tapete, a uma pata de distância da travessa. As rabanadas estavam tapadas e presas por molas. Trincou as molas e com a ponta do focinho, espreitou até se decidir pela rabanada mais apetitosa. Era um gato exigente. Fincou as unhas na mais dourada de todas e saltou outra vez para o tapete, de peito enfunado pela vaidade da sua ousadia. A avó tinha visto tudo e deixou-o aconchegar-se outra vez debaixo do armário. Para um gato esperto tinha falhado o pormenor e depressa foi agarrado pelo cachaço. Pensavas que escapavas, meu safado?! Vais ver como é o castigo. Foi ao quarto e tirou um sapato do avô, um sapatão de pastor, e enfiou-o lá dentro, só de cabecinha de fora. Não se faz gato-sapato de quem te dá comida - riu-se a avó, com o focinho assustado de Marco. Marco miou como se pedisse desculpa, ou talvez como uma estratégia de se salvar ao castigo. Afinal ter ido à travessa das rabanadas era uma prova de que gostava muito dos doces da avó. Agora ficas aí a ver-me comer. Se te portares bem, podes sair e vir receber um pedacinho. Marco deixou-se estar muito quieto. O castigo durou o tempo suficiente para ficar cheio de comichão e a avó logo tratou de lhe acenar com a rabanada prometida. Este Natal vais ser o provador oficial de rabanadas, mas ai de ti que voltes a roubá-las. Ficas a dormir na rua. Há quem diga que os gatos são dos animais mais inteligentes da Criação. Afinal, não há bichos tão livres e aventureiros e capazes de apreciar um doce com tanta alegria. Marco deu um par de turras na mão da avó como se estivesse a prometer-lhe não voltar a roubar ou então apenas para receber mais uma rabanada logo em seguida, pois se havia doce que lhe enchia as medidas era aquele, quentinho, fofinho e com cherinho a canela.

Mau Maria - gritou a avó Gertrudes, enquanto sacudia o pano do pó. - Se te vejo nas rabanadas levas com o chinelo. Marco andava a rondar a travessa, de rabanadas douradas ainda a fumegar. O perfume da canela dava-lhe conta da gulodice. Era um gatinho muito irrequieto. Por outras palavras, era um gatinho muito muito atrevido, traquina, matreiro e astuto, se fosse o caso de o motivo ser comida. A avó tinha acabado de preparar uma pratada de rabanadas e deixara-as a arrefecer em cima da bancada. Sabia da gulodice do seu gatinho, mas gostava de ver até onde ele era capaz de se aventurar para conquistar o seu doce. Pata ante pata, Marco rondou o vaso de cactos, mordiscou um espigão (e logo se arrependeu) e seguiu no rasto da travessa. Fez tudo como um ladrão experiente. Deu então um piparote na rabanada mais a jeito e pô-la a voar à mesma velocidade com que aterrou de quatro patas no tapete. Escondeu-se num ápice por debaixo do armário e começou a saciar-se como um faraó ou um rei ou mesmo um presidente. Deliciava-se já na quinta ou sexta dentada quando a avó o surpreendeu, agachada, a olhá-lo fixamente de óculos na ponta do nariz. Antes de lhe dar tempo de o açoitar ou repreender, tratou de se esgueirar para o alto do frigorífico. Como se pode ser tão mal comportado? - vociferou a avó,

Tiago Zalazar

O GATO E O SAPATO

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