Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 41

As palavras a dobrar, a fender, a fracturar e fragmentar afectos que se supunham inquebráveis.

Tudo se pode partir.

O perceber que as palavras como pedras, a mesma dureza contra a fragilidade dos corpos.

Podes sempre fazer teatro. Na faculdade há grupos de teatro.

As palavras da mãe como pinças a retirar fragmentos de estilhaços do meu corpo.

Assim, o sair de casa.

O viver por minha conta e risco.

Um risco calculado, era um trapezista com rede, porque a mesada do pai, como renda de inquilino irrepreensível, nunca entrou na conta depois do oitavo dia de cada mês.

Os anos de faculdade a passar em voo planado sobre a brisa dos dias.

Não posso dizer que não gostei de Direito.

Aos ouvidos do meu pai nunca o disse. Que esse gosto nunca lho daria. Principalmente porque sei, tenho a certeza, que não seria capaz de resistir a observações do tipo, eu sabia, eu avisei, eu não fiz mais do que devia ser feito, eu sempre soube o que era melhor para ti, eu, eu, EU.

Posso dizer que não gostei dos colegas, o que não evitou que casasse com uma colega.

A única diferente. Como se ser diferente fosse suficiente para fazer um amor.

E durante o curso, todas as horas livres, todas as

baldas, eu no teatro.

O melhor chão do mundo.

Ésquilo, Sófocles, Moliére, Shakespeare, Beckett, Brecht, Ionesco, Artaud, Ibsen, Pinter, Hare, Stoppard.

Gosto dos britânicos contemporâneos.

Eu em papéis importantes.

Uma vez um monólogo. Mais de duas horas de texto e no final as palmas todas para mim.

Notícias nos jornais, fotografias, eu em palco.

A minha mãe a recortar as notícias dos jornais, a guardá-las para memória futura entre as páginas dos álbuns de fotografias.

Notícias com palavras como talento, revelação, promessa.

O curso, o canudo.

A minha mãe a mandar emoldurar o diploma, foi por duas vezes à loja de molduras, indecisa que estava entre as escolhas, e o resultado, uma moldura em talha dourada estilo Luís XV, pirosíssima! Assim como é pindérico, acho eu, pendurar o diploma numa qualquer parede. Curso de descascador de batatas em porão de navio, quem quer passar o Bojador, tem que passar além da dor, especialização na arte de domar dragões, estudos avançados sobre a composição do pó de giz, especialização sobre a utilidade do cotonete no asseio de pavilhões auriculares: as coisas que pensei e não disse.

Que as palavras como pedras, a mesma dureza contra a fragilidade dos corpos.

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