Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 4

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SIGNIFICADO DE UMA REVISTA QUE É, TAMBÉM, «UM OUTRO»

José Pacheco

«A literatura é querer habitar na mente do outro, como um intruso numa casa fechada, é ver o mundo através dos seus olhos, a partir do interior de janelas às quais parece que nunca se assoma ninguém. É uma quimera, mas não renunciamos a essa fantasmagoria.»

Antonio Muñoz Molina, Como a Sombra que Passa

Confirmamos que a revista Fluir tem uma específica e rara razão de ser, quando, neste número, à semelhança do anterior, se está perante uma conjunção astral incomum. A verdade é que cada jornal ou revista literária tende a publicar um certo número de autores, que nos habituamos a ver em conjunto e associados a essa publicação: fazem parte, se não de um clube, pelo menos de um espírito comum. Contrariando essa lógica, diria que é muito difícil um cruzamento de colaborações como as que, em cada um dos seus dois números, a Fluir conseguiu. Opostos que se atraem, sensibilidades desirmanadas, insuspeitadas complementaridades, invisíveis incomplementaridades; autores consagrados, cujo nome reconhecemos imediatamente, e autores novíssimos, cuja qualidade se tornou notória na sua estreia em livro, ou nas suas publicações em blogue, ou na sua actividade de promoção da leitura; poetas,

cronistas, contistas, pintores, diseurs (no caso, diseuses): como uma escultura – em que cada elemento provém de uma geração diferente, de uma visibilidade diferente, de um planeta diferente – como uma escultura que se ergue, diante de nós, numa coerência de milagre.

Todos colaboraram gratuitamente e, embora tenha já aflorado essa questão no anterior editorial, é o momento de recordar o facto e de o explicar. Ora, porquê?

João Pedro George narrou, algures, o seguinte episódio: convidado a prefaciar uma obra publicada pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda, procurara inteirar-se previamente acerca de quanto receberia pela encomenda. Chamaram-lhe a atenção para o «prestígio» da Imprensa Nacional, como se um termómetro acusasse a honra de se ser publicado por essa editora como uma súbita subida de temperatura e uma dignificação automática do próprio curriculum vitae. Não me atrevo, pois, a argumentar que, sobre os colaboradores da Fluir, recaia também um prestígio desse tipo, que vale mais que qualquer compensação monetária. Mas, antes, que o princípio desta revista é o de oferecer, à maior quantidade possível de leitores, criações de qualidade – sem que o processo seja guiado ou condicionado por editoras, partidos, agremiações ou, sequer, a mão invisível do «mercado». Há, no