Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 35

vai ter de...

Tomé morde os lábios e dirige-se ao quarto dos fundos, chega-se ao cofre incrustado na parede onde brilham os logótipos da Companhia Sol-Plus, passa as mãos pelo sensor adeénico, e as portas abrem-se complacentes.

No interior do compartimento, o escafandro de ataque espera por ele, aberto pelas costas. É algo imenso, feito de placas espelhadas fotosensitivas, de macro baterias e recicladores atmosféricos, espigões feitos de lâminas com gumes de monofilamento, defesas capazes de cortar rocha e metal, quanto mais uma alcateia de Lobos tinhosos. Tomé despe o fato de trabalho e nu como veio ao mundo, enfia-se de cabeça no interior do artefacto e o escafandro recebe-o num abraço envolvente. De um momento para o outro deixa de ter frio. Micro-agulhas inserem-se na base do crânio activando sensores ópticos e festivas grelhas de alvos a abater. Uma vozinha discreta pergunta-lhe se o campo de força deve ser accionado e Tomé responde que sim, com um diâmetro de quatro metros, de modo a poder incluir nele o corpo da Mafalda.

Tomé afasta-se do armário com as articulações amplificadas das pernas e dos braços a zunir.

Mafalda, essa, corre em volta, excitadíssima com tantos cheiros novos.

— Tomé é o maior, Tomé caça os bichos maus,

Singularidade que eles anunciam. Receiam ser assimilados na Mónada Gestalt de um Deus impassível. Os Lobos não passam de um efeito secundário...

— Não entendo, — gane Mafalda. — Não entendo nada de nada. O mundo está a mudar muito depressa, e eu...

Tomé levanta-se, porque sabe que é chegada a hora. A tatuagem no pulso pisca uma contagem decrescente. Trinta minutos para a Extracção. Coordenadas topológicas percorrem-lhe a retina. Coordenadas que lhe indicam um local exacto onde deverá ficar de pé, imóvel, à espera de ser fisgado. Trinta minutos para a queda do Domo e da Barreira. Trinta minutos para vestir o escafandro de combate, armar-se com o canhão de lança-partículas, dirigir-se a um ponto preciso da Quinta arruinada, um círculo de dois metros de diâmetro apenas, fazer ascender o gancho de contacto ligado ao balão sinalizador e ficar à espera que o recolham.

Trinta minutos para abater a Mafalda.

Tomé penetra na moradia, sempre com a cadela à perna. A sala de estar está quase deserta, agora que os solidogramas da Laura e do Luizinho se desligaram de vez por falta de energia. Que se lixem os dois. Constituíam uma família que de facto nunca existiu. A única família real que até ali sempre o acompanhou, foi a Mafalda e mesmo ela

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