Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 33

surge a correr, espavorida vinda dos limites da Barreira: — Tomé, Tomé, os Lobos...

Tomé abana a cabeça, ajoelha-se, segura a cadela pelo cachaço e murmura-lhe às orelhas: — Eu sei, minha querida, eu sei, mas cala-te, que temos um trabalho monstro para terminar...

— Tomé, ¬— insiste Mafalda. — Falei com um Lobo mau, mau, mau. E ele prometeu que...

Mr. Dark recua num salto. A Comitiva, ao ouvir falar de Lobos, deita a correr para longes terras.

— Um Lobo? — bale o carneiro. —Onde? Onde? Onde?

— Caluda! — berra Tomé. — Não há aqui Lobo nenhum. Ninguém vos quer mal. Se existem Lobos, estes está Lá Fora. Não sejam maricas, ou não vai haver Eternidade para ninguém! Estamos entendidos?

— Tomé, Tomé, Tomé... — gane Mafalda com a cauda enfiada entre as pernas. — Eles existem, falaram comigo... e prometeram que...

Tomé fecha os olhos, respira fundo, acaricia o lombo da Mafalda e diz-lhe baixinho: — Temos trabalho, menina. Um trabalho enorme. Temos de recolher todo o rebanho e enviá-lo para as Portas do Céu. Já, percebeste? Já. Sem mais demoras.

Mafalda acalma-se. Mafalda gosta de agradar a quem ama. Mafalda gosta de Tomé e se ele quer despachar todos os imbecis dos carneiros sem

apelo nem agravo, mesmo com a ameaça dos Lobos à porta, que assim seja.

Mafalda late: — Sim, patrão. Sim chefe, vamos nessa Vanessa. Ponto final na carneirada. Correcto e afirmativo?

E o trabalho de recolha começa, com as horas a correr em contagem decrescente, com o sol a esvair-se sob a cobertura do Domo, com o ar a esfriar, mais e mais, com os insectos a caírem e a passarada a tombar dos ramos gelados como moscas perante um súbito e inclemente Inverno. A erva debaixo dos pés tornou-se dura e quebradiça. Sopra um vento frio vindo dos primeiros orifícios rasgados na Barreira. E também existe agora no ar um perfume a azeitonas fermentadas, a coisas semi podres, a húmus putrefacto. Tomé controla um vómito, assobia, gesticula, e Mafalda corre de um lado para o outro, a dentar as canelas das crias mais desobedientes, a tentar conduzir todos os quinhentos membros do rebanho rumo às portas escancaradas do matadouro.

Tomé estreme perante este pesadelo que se perpetua. Este acto de ambígua misericórdia lembra-lhe outros horrores que aconteceram na Velha Velha Terra. Mas é por bem, pensa, como outros já pensaram servindo-se de argumentos um pouco diferentes. De modo algum vamos deixá-los nas mãos dos Lobos. Melhor um fim doce do que um

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