Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 25

parece um prato de macarrão púrpura, embora Tomé lhe tenha tentado explicar vezes e vezes sem conta que as cores da floresta são muitas e variadas, que todos aqueles talos emaranhados estão vivos, sempre a crescer e a devorarem-se uns aos outros. Pois que se comam.

E de súbito uma voz sibilina instala-se no implante neuronal de Mafalda. Uma voz que nada tem a ver com a Voz do Dono. Uma voz estranha, insinuante, ao mesmo tempo sedutora e raivosa.

Pssst... ó filha... queres companhia? A menina mora em casa de seus pais? Ainda é solteira? Que tal um farrobadó á canzana?

Os pelos no pescoço de Mafalda ficam de súbito eriçados de um terror que há muito não sentia. O medo do escuro, a separação da mãe, a broca laser a furar-lhe a nuca, tudo isto é nada perante o que lhe apareceu do outro lado da Barreira.

Um Lobo.

Sim, sim, um Lobo como aqueles que Tomé lhe mostrou em solidogramas, uma criatura com seis metros de comprimento, três pares de patas articuladas, uma cabeça serpentóide capaz de atingir a posição vertical, um focinho que parece estender-se sem fim, dotado de uma dentição aguçada, onde fieiras e fieiras de presas cristalinas parecem encaixar-se umas nas outras como um colar de diamantes.

O Lobo está mesmo colado à Barreira, sentado como se não fosse nada de mais, com a cauda interminável enroscada no pescoço a fazer de colar escamado, as patas da frente erguidas como se quisessem esgravatar os pixéis da Barreira, como se, com um simples gesto na vertical, pudesse rasgá-la de cima abaixo. Os olhos da criatura, três ao todo, colocados mesmo acima do focinho como convém aos predadores são, pelo menos assim lhe diz a Infopédia, de um belíssimo tom azul, simples esferas cristalinas sem pupilas à vista, a imaginar um Oceano que não existe aqui, em Tau Ceti-3.

Mafalda recua de um salto com um fiozinho de urina a escorrer-lhe entre as patas traseiras. Em seguida lembra-se que, entre ela e o Lobo há uma Barreira de energia que nada deixa passar. E porque é um cão de guarda, põe-se a latir:

— Bicho feio. Bicho horrendo. Cheiras mal. Vai-te embora. Aqui mando eu. Rua, rua, que esta casa não é tua. Olha que eu chamo o dono. Pira-te. Andor.

O Lobo inclina a cabeça para trás e solta uma gargalhada de escárnio. As maxilas castanholam num som que parece duas chapas de metal a baterem uma na outra. Uma das mãos articuladas esgravata as escamas douradas do pescoço. A boca rasga-se numa fenda de negrume por onde espreita um língua que se desenrola como a de um camaleão e vem estender-se até dois milímetros da Barreira.

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