Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 21

Variações em mi m sobre uma anedota de alentejanos

perguntou:

- Mas com qual delas? A da direita ou a da esquerda?

Tal como o estilo arquitectónico daquela artéria, nós é uma categoria difusa, que só nos ocorre brandir quando precisamos de argumentos para recusar o que nos parece ser outro.

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“Todos somos estrangeiros, praticamente no mundo inteiro” foi uma das primeiras frases que li quando cheguei à Alemanha, nos anos oitenta. Duas décadas antes tinham sido celebrados acordos com os países do sul da Europa e com a Turquia, abrindo as fronteiras aos trabalhadores estrangeiros que foram vitais para o crescimento económico dos anos sessenta. Chamaram-lhes Gastarbeiter - trabalhadores convidados - mas eles foram ficando, e mudaram o país. A Alemanha de hoje seria impensável sem as suas pizzarias, os seus restaurantes gregos, os seus quiosques de döner kebab, e sem os filhos e netos desses antigos forasteiros que conquistaram lugares de destaque na política, na cultura, no desporto, nas ciências, na segurança pública. No entanto, ao menor percalço, esses que tanto contribuíram para o enriquecimento económico, cultural e social do país voltam a ser vistos como sendo outros.

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De um português em plena cena de “agarrem-me-que-eu-mato!” dizemos com indulgência que está com os azeites. Se for um alemão, facilmente haverá quem diga que é um nazi e que a violência lhe corre no sangue. O diagnóstico é um raciocínio nazi por excelência, mas quem lança veredictos simplistas sobre os outros não costuma ser atormentado pela capacidade de autocrítica, e não repara na ironia.

De uma pessoa de pele escura em plena cena de “agarrem-me-que-eu-mato!” também se dirá com um encolher de ombros que é delinquente ou selvagem. E se for árabe, será terrorista.

Nós estamos, os outros são.

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Tanto os meus sogros como os meus pais andavam na escola primária no tempo de Auschwitz. Uns na Alemanha, os outros em Portugal. Nenhum deles teve culpa do horror, mas só os meus sogros sentiram com acutilância a responsabilidade da História, a obrigação de combater activamente o anti-semitismo no seu país e de assumir, durante as estadias no estrangeiro, o papel do diplomata que quer dar uma imagem positiva do seu povo. Auschwitz tornou-se uma culpa exclusivamente alemã. Como se a ameaça do abismo fosse um monopólio dos alemães e, num plano mais concreto,

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