Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 15

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Entretanto, tudo parece mover-se na terra granulada.

Encontro um osso fracturado no sítio onde outra de mim foi atingida. Redobro os cuidados ao extraí-lo. Filmo a sequência para não perder nada. Às vezes os ossos desfazem-se quando são expostos; e as coisas querem-se rigorosas nesta investigação.

Se prosseguir, chegarei às camadas mais profundas. Ali estão depositados os cabelos pretos cortados, os caixotes vazios alinhados num comboio sobre as pedras, as cartas vindas do navio, as muitas conchas dos Verões. Poderei até encontrar os caules das flores que a menina que fui comia sem ninguém ver, ou o breve reflexo do seu rosto na piscina aberta sobre a relva.

E sob o pó de tantos dias, talvez chegue ao berço onde dorme a última outra de mim, recém-chegada a este mundo, protegida dos ruídos pelo lado do sonho, agarrando entre os minúsculos dedos a vida ainda a estrear e um qualquer brinquedo de pano.