Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 13

Não têm nome – são corpos que o frio

esfaqueia ao virar das esquinas, sombras

que tiritam dobradas no cobertor da noite.

Se porventura chegaram a ver a luz, o clarão

cegou-os para sempre e perderam-se como

os anos que somam todos os anos sem saber

quantos são. Não os chamamos – os seus

rostos vincados pelos dias são espelhos que

desafiam o labor do tempo; têm os olhos

perdidos nas olheiras, e o olhar perdido, e as

mãos perdidas nos bolsos em que ficaram as

migalhas de outras vidas que alguém lhes

estendeu como a acenar-lhes com a promessa

de um inverno mais quente. Não sabemos

quem são – se porventura chegaram a ter

um nome, também já o perderam; nada lhes

resta senão o medo com que os olhamos de

longe e o próprio medo – e, se acendem

fósforos exaustos contra a escuridão, é por

saberem que mesmo as estrelas são da noite.

Deitam-se sós nas camas que inventaram,

esquecidos de que choraram por dias inteiros

todos os corpos bonitos que perderam. Afagam

os ossos cansados antes do sono e, por não

terem já quem lhes peça um abraço, passam

a noite a fazer companhia à solidão e acordam

com um braço perdido no outro braço

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"Não têm nome..."

Maria do Rosário Pedreira