Fluir nº 2 - fevereiro 2019 - Page 10

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Maria do Rosário Pedreira

Mote:

Cada vez há mais crianças a chegar à Europa sozinhas.

Mãe, oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão:

com o menino ao colo, fez-se a estrada maior do

que o meu desespero, amarrotou-se de velho meu

coração tão claro. Eu tinha catorze anos antes

do estrondo, catorze anos e meio antes do teu

grito, quinze anos cumpridos quando afastei o

véu dos teus cabelos: se me dizias sempre que não

fosse para longe, porque pediam o contrário os

teus olhos parados? Ainda por cima, mãe, chegar

ao campo foi como bater a uma porta cansada –

mil tendas que eram velas remendadas, barcos para

ficar de novo pelo caminho. Trouxeram-nos mantas

cheias de perguntas; tentaram-me com doces

para me pôr no lugar; mudaram ao meu irmão

a fralda com as mãos frias. Mãe, eu disse-lhes que

o menino era meu; e agora, quando ele procura os

teus seios no meu corpo sem formas, cubro com

o teu véu os meus cabelos e canto-lhe baixinho

canções de açúcar. Não sei que idade tenho, mãe,

mas oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão.

Mote:

Família de menino sírio que morreu na costa turca fugia para o Canadá; mãe e irmão mais velho também não sobreviveram ao naufrágio.

O meu pai chamou-me e pediu-me que escolhesse

um brinquedo – só um – de que gostasse muito; e

que separasse outro brinquedo para o Aylan, que

ainda não sabia escolher – mas só um, e tinha de

ser pequeno. O meu pai explicou-me que nessa

noite ia fazer de tudo quase nada numa trouxa

leve; porque assim, quando o Aylan e eu caíssemos

de sono, ele e a minha mãe podiam levar-nos ao

colo sem ficarem para trás. Havia lágrimas nos olhos

do meu pai quando contou que, na manhã seguinte,

teríamos de deixar a nossa terra; mas logo se

recompôs, dizendo que Kobanî também já não era

bem a nossa terra, que a nossa casa era a ruína da

nossa casa, que toda a Síria não passava de um tímpano exausto de tanto estrondo e dois olhos cansados,

mas tão cansados, de chamas e de sangue. O meu pai