rando a maresia e, após tudo organiza-
do, começaram...“água mineral três real
(sic)”. Não demorou muito para que a
primeira cliente, uma senhorinha que
passeava com seu cachorro aparecesse
e pedisse uma.
Gaúcho, homem que intitulava-se
integro, ficou com medo de vender a
água que não possuía lacre, mas Ferrari
deu jeito na situação. Ao servir a água,
que estava guardada em caixa térmi-
ca, virou-se ao lado, abaixou a cabeça
e, sutilmente, simulou o barulho da
abertura do lacre com a boca. Rápido
como um empresário na ânsia de ven-
der o primeiro produto, Ferrari enche
o copo plástico com a água de mina e
pergunta “a senhora vai querer canudi-
nho também?”. A pobre senhora, ingê-
nua da falcatrua presenciada, elogia o
serviço dos andarilhos e entrega o pri-
meiro três reais daquilo que seria fonte
de renda por um mês.
Com os olhos brilhando e sorriso
interno de quem conseguirá ganhar
tostões da bendita Nossa Senhora da
Gloria, Gaúcho foi o primeiro a apoiar
o plano e estimular a busca de mais
garrafinhas d’água nas lixeiras do cal-
çadão. As vendas eram organizadas e
as funções divididas entre os quatro.
Ferrari, o mais esperto, era o vendedor.
Amilton, com voz de violeiro, oferecia
água para as pessoas que passavam
pelo calçadão. Gaúcho, com porte atlé-
tico, subia e descia o morro para encher
as garrafinhas duas ou três vezes ao dia.
Já o Zé da Vaca era escondido pelos
amigos por sua aparência, que ao pedir
para gaúcho uma descrição detalhada,
foi resumido por ET com barba de pa-
pai Noel.
As vendas eram sucesso. Os rapa-
zes eram simpáticos e sorriam mesmo
com poucos dentes, ora por estratégia
de marketing ora por espontaneidade.
O fato é que várias pessoas foram en-
ganadas ao longo do mês e não falta-
Olhando o horizonte, pôs-se a refletir a vida
FOTO: RENATO LUCENA