Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 233

rando a maresia e, após tudo organiza- do, começaram...“água mineral três real (sic)”. Não demorou muito para que a primeira cliente, uma senhorinha que passeava com seu cachorro aparecesse e pedisse uma. Gaúcho, homem que intitulava-se integro, ficou com medo de vender a água que não possuía lacre, mas Ferrari deu jeito na situação. Ao servir a água, que estava guardada em caixa térmi- ca, virou-se ao lado, abaixou a cabeça e, sutilmente, simulou o barulho da abertura do lacre com a boca. Rápido como um empresário na ânsia de ven- der o primeiro produto, Ferrari enche o copo plástico com a água de mina e pergunta “a senhora vai querer canudi- nho também?”. A pobre senhora, ingê- nua da falcatrua presenciada, elogia o serviço dos andarilhos e entrega o pri- meiro três reais daquilo que seria fonte de renda por um mês. Com os olhos brilhando e sorriso interno de quem conseguirá ganhar tostões da bendita Nossa Senhora da Gloria, Gaúcho foi o primeiro a apoiar o plano e estimular a busca de mais garrafinhas d’água nas lixeiras do cal- çadão. As vendas eram organizadas e as funções divididas entre os quatro. Ferrari, o mais esperto, era o vendedor. Amilton, com voz de violeiro, oferecia água para as pessoas que passavam pelo calçadão. Gaúcho, com porte atlé- tico, subia e descia o morro para encher as garrafinhas duas ou três vezes ao dia. Já o Zé da Vaca era escondido pelos amigos por sua aparência, que ao pedir para gaúcho uma descrição detalhada, foi resumido por ET com barba de pa- pai Noel. As vendas eram sucesso. Os rapa- zes eram simpáticos e sorriam mesmo com poucos dentes, ora por estratégia de marketing ora por espontaneidade. O fato é que várias pessoas foram en- ganadas ao longo do mês e não falta- Olhando o horizonte, pôs-se a refletir a vida FOTO: RENATO LUCENA